Le Corbusier

         II

Risco à régua
um ritmo reto
retém o rumo
rude da pedra

milimetrado voo
via viaduto vão
respira a planta
trevo sem trégua

calado cálculo
concreto decalca
as ruas na cal
calçadas: calmas

avenidas claras
avançam: vazias
janelas vidradas
fachadas frágeis

pilotis plantados
cubos de granito
blocos de cimento
fixos: edifícios

iluminados traços
de alumínio: vivos
veículos vestidos
de ferros e vidros

gestos e linhas
vínculos e vigas
faixas e listras
cinética imagem

cidade.

Armando Freitas Filho (Rio de Janeiro, 1940), In “Dual” (1966). Tirado da internet em um site que apresenta uma seleção de cinco poemas dele com curadoria de Luís Araujo Pereira

A base de toda metafísica

E agora, senhores,
Uma palavra eu lhes dou para permanecer em suas memórias e mentes,
Como base, e fim também, de toda metafísica.

(Também, para os alunos, o velho professor,
No final de seu curso apinhado.)

Tendo estudado o novo e o antigo, os sistemas grego e alemão,
Kant tendo estudado e exposto – Fichte e Schelling e Hegel,
Exposto o saber de Platão – e Sócrates, maior que Platão,
E maior que Sócrates buscado e exposto – Cristo divino tenho muito estudado,
Eu vejo reminiscentes hoje aqueles sistemas grego e alemão,
Vejo as filosofias todas – igrejas cristãs e princípios, vejo,
Sob Sócrates claramente vejo – e sob Cristo o divino eu vejo,
O caro amor do homem pelo seu camarada – a atração de amigo por amigo,
Do marido bem-casado e a esposa mãe de crianças e os pais,
De cidade por cidade, e terra por terra.

Walt Whitman (Huntington, Virgínia Ocidental, Estados Unidos, 31 de maio de 1819 – Camden, Nova Jérsei, Estados Unidos, 26 de março de 1892)

Monjolo

Chorado do Bate-Pilão

Fazenda velha. Noite e dia
Bate-pilão.

Negro passa a vida ouvindo
Bate-pilão.

Relógio triste o da fazenda.
Bate-pilão.

Negro deita. Negro acorda.
Bate-pilão.

Quebra-se a tarde. Ave-Maria.
Bate-pilão.

Chega a noite. Toda a noite
Bate-pilão.

Quando há velório de negro
Bate-pilão.

Negro levado pra cova
Bate-pilão.

Raul Bopp (Vila Pinhal, atual Itaara – Rio Grande do Sul, 4 de agosto de 1898 — Rio de Janeiro, 2 de junho de 1984)

Dança dos Planetas

Ilumina o Sol –
O que transportam de lá seus raios
Para flores e pedras
Tão poderosamente?

Tece a alma –
O que eleva a vida
Da crença à contemplação
De maneira tão ansiante?

Oh procura, tu alma
Em pedras o raio,
Em flores a luz –
Tu encontras a ti mesma.

Rudolf Steiner (Kraljevec, fronteira austro-húngara, 27 de fevereiro de 1861 — Dornach, Suíça, 30 de março de 1925). Trad. Valdemar W. Setzer (VWS); rev. Sonia A. L. Setzer (SALS)

Edmundo, meu pai, 25 anos sem ele

Na data de hoje completam 25 anos do falecimento de Edmundo de Oliveira Matosinho – que, se estivesse ainda entre nós, teria 103 anos. Saudades!

* Dois Córregos/ SP, 13 de maio de 1921 – + São Paulo/ SP, 6 de agosto de 1999

Eterno farmacêutico!

Por sua alma haverá missa em São Paulo nessa terça-feira, 06/08, às 19 horas, na Paróquia Santa Teresinha, localizada na Rua Maranhão, 617 – Higienópolis – Telefone: (11) 3660-1220; e em Ourinhos/ SP, onde meu pai viveu boa parte de sua vida, devido ao feriado municipal (Dia do Santo Padroeiro, Senhor Bom Jesus), será na quarta-feira, 07/08, às 19:30 horas, na Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe, conhecida por Seminário Josefino (Rua Amazonas, 1.119 – Vila Perino – Telefone: (14) 3335-9495), encomendada pelo primo Ângelo Silva Neto.

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer, amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e
uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita,
e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987)