Boris e Marina (Trechos)

telepatia

— e quando uma pele nova brotar
ao redor do focinho e um tufo de pelos
anunciar a troca de estação

você poderá me escrever longos poemas, Marina
vou carregá-los numa sacola na altura
do ombro esquerdo

com a mesma obstinação com que Kliébnikov
carregava seus cálculos matemáticos
nas trincheiras

seus poemas vão perfurar meu anoraque
e pelas ruas vão dizer
lá vai o doido do Pasternak

§

Dois poemas de Marina T.

as sílabas e os nomes

Marina recorda

As sílabas — belas maçãs vermelhas —
mordo feito criança feroz.
E viva a marca dos dentes na pele.

O sabor mora na língua, mora
nos lábios, mora na maçã mordida
que esplende na minha mão.

Quando criança me chamavam Mússia.
Porém tão logo saíam da boca
as sílabas despencavam no chão.

Eu não chorava. Já eram minhas
a boneca de porcelana e a estátua
de Púchkin na avenida Tverskáia.
Por que precisaria de um nome?

Ele vivia trancado no quarto —
pelicano empalhado.
Bastou um verão, Boris
para Marina ganhar asas.

//

três cartas quase secas

1

Em poucas palavras:
não imagino a vida a seu lado.
Não suporto a repetição infinita
do pano de chão, da peça
de roupa, da louça na pia
e a tortura contínua das refeições.
Não nasci para o cotidiano.
Nasci para o transe.
Minha casa é uma estação de trem.
É o que digo aos amigos:
não contem demais com o meu amor.
Por isso, Boris, te concedo mais tempo:
para que você decida como prefere morrer.
Última coisa: não quero que te enterrem.
Quero que te queimem.

2

Peço desculpas, Boris
pela secura da última carta
mas tenho meu código de honra.
Não posso dourar palavras
como se douram cebolas.
As duas fazem chorar
mas terminam aí as coincidências.
Na cozinha, minha única destreza
é descascar, pelar, cortar, picar.
Ponho os legumes na panela
e esqueço de apagar o fogo.
No fundo, só posso dar de comer
à minha própria fome e
ela não se sacia com comida.

3

De agora em diante
vou te escrever menos e fumar
um pouco mais. Não sei por quê
mas o papel é uma égua —
fica bêbada com a tinta da caneta
e sorve sem trégua essa mistura
de sangue e noz de galha.
Dá para ouvir os ecos
no longo pescoço equino
de cílios verde-prata e crina
que me faz chorar.
Pescoço, cílios, crina.
São esses os meus companheiros.
Por isso não estranhe, Boris
se um dia você der comigo
debaixo da sua janela
montada numa égua albino.
Ela vara a madrugada, mergulha
o focinho na água dos charcos
e fecha o meu corpo
com um discreto xale de neblina.

Sobre o livro

“Foi Boris Schnaiderman quem me falou pela primeira vez da ‘correspondência amorosa’ entre Marina Tsvetáieva, Boris Pasternak e Rainer Maria Rilke. Mencionou o livro quando já estava de saída, na porta da editora onde trabalho em São Paulo. Na hora fui reticente quanto ao adjetivo “amoroso”, seria isso mesmo? Mas quando o livro me caiu nas mãos, fiquei assombrado. As cartas, que atingem o ápice no verão de 1926, passam rapidamente de conversas em torno da poesia para declarações de amor apaixonadas. Boris está em Moscou, Rilke na Suíça e Marina no exílio, numa cidadezinha na costa da França. Penso que, além da poesia, a impossibilidade de se encontrarem também turbinou a intensidade das paixões. O fato é que foi uma leitura inesperada para mim. Foi como entrar num rio de altíssima voltagem e logo me vi escrevendo através dessas vozes. Quero dizer: não tenho nenhuma pretensão de reproduzir as vozes verdadeiras (ou o que seja isso) de Tsvetáieva, Rilke ou Pasternak. São todas figuras inventadas – e uma nota de abertura deixa isso bem claro –, mas a intensidade do que eles dizem e vivem na sua correspondência abriu uma porta, um canal, para mim. Boris e Marina foi escrito a partir daí.”

Alberto Martins

Alberto Martins (Santos, São Paulo, 1958). É autor dos livros de poemas “Cais” (2002), “Em trânsito” (2010) e “Boris e Marina” (2025) e das ficções “A história dos ossos” (2005), “Lívia e o cemitério africano” (2013) e “Violeta” (2023). No recém-lançado “Boris e Marina”, ele cria poemas a partir de cartas reais trocadas no verão de 1926 por três grandes poetas do século 20: Boris Pasternak, Marina Tsvetáieva e Rainer Maria Rilke, cada um em um país (Pasternak na Rússia, Tsvetáieva na França e Rilke na Suíça). Este livro ficou em 1º lugar na 68ª edição do Prêmio Jabuti 2026 na categoria “Poesia”. In “Boris e Marina”, São Paulo: Companhia das Letras, 2025. Os vencedores do Prêmio Jabuti deste ano, o mais prestigioso prêmio literário do país, foram anunciados nesta terça-feira, 27 de outubro, durante cerimônia realizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) na Sala São Paulo, na capital paulista. “Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio”, de Ruy Castro e editado pela Companhia das Letras, foi o grande destaque da noite, conquistou o prêmio de “Livro do Ano” pelo segundo ano consecutivo e também venceu na categoria “Biografia e Reportagem”

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 62 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 19 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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