Onze hai-kais de Millôr Fernandes

O Hai-Kai é um pequeno poema japonês composto de três versos, dois de cinco sílabas e um – o segundo – de sete. No original não tem rima, que geralmente lhe é acrescentada nas traduções ocidentais. A época do aparecimento do Hai-Kai é controversa, e sua popularização deu-se no século XVII, sobretudo através da produção de Jinskikiro Matsuo Bashô, simbolista inspirado profundamente em impressões naturais (sobretudo paisagísticas) e adepto do Zen (…)

Millôr Fernandes

Morta, no chão,
A sombra
É uma comparação.

*

Se o cão é uivante
A Lua vira
Quarto minguante.

*

Eu vim com pão, azeite e aço;
Me deram vinho, apreço, abraço:
O sal eu faço.

*

Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a Lua.

*

Pensa o outro lado:
só quem tem fama
É difamado.

*

Maravilha sem par
a televisão
Só falta não falar.

*

Tem cautela;
Ajuda o sol
Com uma vela.

*

A alegria
É toda feita
De melancolia.

*

Vida rural, senhor,
É ver vacas
Na tevê em cor.

*

Por que lutam os bravos?
Querer liberdade
É coisa de escravos.

*

O mundo agoniza.
Querem retificar
A Torre de Piza!

Millôr Fernandes (Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923 — 27 de março de 2012). In “Hai-kais”. Porto Alegre: L&PM, 1997. (Coleção L&PM/ Pocket)

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 19 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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