O Hai-Kai é um pequeno poema japonês composto de três versos, dois de cinco sílabas e um – o segundo – de sete. No original não tem rima, que geralmente lhe é acrescentada nas traduções ocidentais. A época do aparecimento do Hai-Kai é controversa, e sua popularização deu-se no século XVII, sobretudo através da produção de Jinskikiro Matsuo Bashô, simbolista inspirado profundamente em impressões naturais (sobretudo paisagísticas) e adepto do Zen (…)
Millôr Fernandes
Morta, no chão,
A sombra
É uma comparação.
*
Se o cão é uivante
A Lua vira
Quarto minguante.
*
Eu vim com pão, azeite e aço;
Me deram vinho, apreço, abraço:
O sal eu faço.
*
Na poça da rua
O vira-lata
Lambe a Lua.
*
Pensa o outro lado:
só quem tem fama
É difamado.
*
Maravilha sem par
a televisão
Só falta não falar.
*
Tem cautela;
Ajuda o sol
Com uma vela.
*
A alegria
É toda feita
De melancolia.
*
Vida rural, senhor,
É ver vacas
Na tevê em cor.
*
Por que lutam os bravos?
Querer liberdade
É coisa de escravos.
*
O mundo agoniza.
Querem retificar
A Torre de Piza!
Millôr Fernandes (Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923 — 27 de março de 2012). In “Hai-kais”. Porto Alegre: L&PM, 1997. (Coleção L&PM/ Pocket)