Eis a cabeça da moça, uma exumada cabaça.
Rosto oval, pele passa, pedras passas como dentes.
Desenfaixaram a úmida avenca do cabelo
E colocaram em exposição um caracol,
Deixaram o ar entrar na beleza coriácea.
Cabeça de sebo, perecível preciosidade:
O nariz partido é negro como torrão de turfa,
As órbitas vazias poços de antigos fermentos.
Diodorus Siculus confessou
Um gradual conforto entre pessoas semelhantes:
Assassinada, desprezada, anônima, terrível
Decapitada moça, a olhar de frente machado
E beatificação, a olhar de frente
O que começara a dar impressão de reverência.
Seamus Heaney (Castledawson, Condado de Londonderry, Irlanda do Norte, 13 de abril de 1939 – Blackrock Clinic, Dublin, Irlanda, 30 de agosto de 2013) foi um poeta e escritor irlandês agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1995. Ele é considerado um dos principais poetas irlandeses de todos os tempos, junto a nomes como William Butler Yeats, Oscar Wilde, James joyce e Samuel Beckett. Tinha como características marcantes em seus versos a força de seu lirismo, a defesa de autonomia da Irlanda do Norte e a presença de motivos épicos e gregos em suas obras. In “Poemas”, Companhia das Letras, 1998