Nasci não muito longe das barrancas do Paranapanema.
Esse rio que passa na minha aldeia, não é o Tejo e nem o Nilo,
mas também é cheio de contos, causos e cantos.
Místico que sou, sempre acreditei que os rios têm alma.
Choram, guardam segredos, sangram e sorriam.
Também pensava assim Tales de Mileto, filósofo grego,
segundo o qual a água é o elemento primeiro do universo.
Meu rio, que hoje recebe o status de “rio mais limpo do Estado de São Paulo”,
vira e mexe é alvo de interesses escusos. Estes, aliás,
sempre travestidos de um pseudo-progresso-autossustentável
como canta a canção de uma viola engajada:
” Meia dúzia de carrascos movidos pela ambição
Tentaram matar o rio com indústrias na região
O povo da redondeza fez das tripas coração
A empresa criminosa bateu com a cara no chão”
Sempre que sei de novas investidas contra o “Panema” tenho vontade de armar uma esquadra de barcos-cheios-de-carrancas, iguais aquelas do Rio São Francisco, para espantar esses maus-espíritos-que–se-entocaiam na região.
Mas aí, há amigos que me convencem que a poesia e o canto dos violeiros locais, são a melhor cruzada para mobilizar o povo e proteger o rio. De fato, a voz e a viola de Tião Carrero e Pardinho [famosos na música sertaneja] sempre se ouve em suas águas abençoadas [e limpas na divisa entre São Paulo e Paraná]:
“O rio Paranapanema é obra do Criador
É espelho das estrelas o mundo do pescador
No livro da natureza vai entrar mais um poema
Vamos cantar a beleza do rio Paranapanema…
De nascentes cristalinas suas águas são formadas,
Matando a sede do gado e banhando as invernadas.
O rio Paranapanema deságua no Paraná
Mas toda a sua beleza deságua no meu cantar”
(Para meu pai que me levava pescar no “Panema”)
Carlos Alberto Rodrigues Alves, de iniciais C. A. R. A. (Itatinga, São Paulo – 17 de fevereiro de 1957) é teólogo, pedagogo, Pastor evangélico e professor
Ou como nomeou alguns de seus quadros o mestre Valdir Sarubbi (Bragança, Pará, 10 de outubro de 1939 – São Paulo, 8 de novembro de 2000): “Este rio é minha rua”… (Pois nasci bem próximo das margens desse rio, na Vila Odilon, na Rua Padre Rui Cândido da Silva, que atravessa todo o bairro e termina nele e, que antes de receber o nome desse religioso, essa rua chamava-se Paranapanema)