Venda Grande, onde liberais paulistas, lutando pela independência, foram esmagados por Caxias

Mais uma vez, como ocorre com a “Batalha do Jenipapo” de 1823, lutando no Piauí pela independência do Brasil, soube pelo meu sobrinho campineiro Diogo Fernandes Matosinho, que em Campinas, interior de São Paulo, também ocorreu um outro conflito um pouco depois daquela, em 1842, conhecida como “Revolução liberal e o combate de Venda Grande”. Ambas muito pouco conhecidas e estudadas pelos brasileiros. Convido os leitores do blog “Redescobrindo” para se inteirarem dessa história que escrevo em parceria com Alcides Ladislau Acosta (Ponta Porã, Mato Grosso do Sul, 27 de junho de 1943), grande especialista nos acontecidos da Princesa d’Oeste e fundador e vice-presidente da ABAL Campinas (Associação Brasileira Carlos Gomes de Artistas Líricos), entidade que divulga a obra imortal do grande maestro Antônio Carlos Gomes (Campinas, São Paulo, 11 de julho de 1836 – Belém, Pará, 16 de setembro de 1896).

Uma das grandes agremiações políticas do Império brasileiro, o Partido Liberal se contrapunha ao Partido Conservador. Foram seus representantes que promoveram, em 1840, durante o Ministério dos irmãos Andradas (gabinete liderado principalmente por José Bonifácio), a elevação de D. Pedro II ao poder, mediante a declaração da maioridade. Tendo vencido as eleições de 1842, e sendo a assembleia geral dissolvida pelo governo, o Partido Liberal caiu na oposição, chegando seus membros a organizar movimentos armados em São Paulo e Minas Gerais. Com relação à revolução liberal de 1842, ou combate de Venda Grande, ela aconteceu quando o imperador D. Pedro II dissolveu a Assembleia Geral, que ainda se encontrava trabalhando em suas sessões preparatórias. A alegação era que as irregularidades e fraudes cometidas no processo de eleição haviam determinado a vitória dos liberais. Estes não se conformaram com a decisão imperial e iniciaram, então, nas províncias de São Paulo e Minas Gerais, uma série de pronunciamentos indignados contra a dissolução efetivada. Logo em seguida uma delegação do Partido Liberal saiu de São Paulo com destino ao Rio de Janeiro, pensando em encontrar-se com o imperador para discutir a questão, mas não foi recebida por ele.

A recusa provocou o surgimento de um movimento rebelde na cidade paulista de Sorocaba – cuja câmara aprovou por aclamação o nome do brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar (Sorocaba, São Paulo, 4 de outubro de 1794 — Rio de Janeiro, 7 de outubro de 1857) como presidente da província -, agitação que se estendeu às cidades de Taubaté, Pindamonhangaba, Silveiras e Lorena. Uma coluna formada por 1.500 homens – a Coluna Libertadora – marchou então sobre a capital paulistana, mas foi enfrentada por tropas legais comandadas por Duque de Caxias (Vila de Estrela, Rio de Janeiro, 25 de agosto de 1803 – Valença, Rio de Janeiro, 7 de maio de 1880). No combate que aconteceu em Vargem Grande, hoje Vargem Grande do Sul, os revolucionários não tiveram melhor alternativa senão recuar e retornar a Sorocaba, onde acabaram se dispersando. Com o fracasso do movimento Tobias de Aguiar fugiu para o sul do país, enquanto em Sorocaba, o Padre Feijó (São Paulo, batizado em 17 de agosto de 1784 – São Paulo, 10 de novembro de 1843), que estava comprometido com os rebeldes, foi preso e exilado para o Espírito Santo.

Campinas, como mostra matéria assinada por Célia Farjalla em 7 de junho de 1997, e publicada no jornal “Correio Popular”, de São Paulo, o historiador Amador Bueno Machado Florence relata minuciosamente os episódios da ação revolucionária de 1842 em Campinas, ressaltando o heroísmo dos participantes, dizendo que foi nessa cidade que o exército imperial encontrou resistência. Foi lá que o sangue paulista e campineiro ensopou o solo da província, “na coragem de um punhado de bravos que não queria recuar”.

Mas Caxias, chefe das hostes governamentais, foi generoso. Não quis esmagar os vencidos, embora tivesse tido ação fulminante contra eles. Debelada a revolta, enterrados os mortos, poucos foram aprisionados. Um deles foi Boaventura Soares do Amaral, capitão, assassinado a sangue frio pelos soldados do lado conservador. Ele ficou como símbolo dos liberais vencidos. Sabe-se também que “A Gazeta de Campinas”, de 16 de julho de 1882, registrou a exumação das vítimas, e o translado solene de seus despojos para um cemitério público de Campinas. Os historiadores registraram os nomes de 59 componentes revolucionários. Em março de 1843 foi promulgada lei concedendo anistia a todos os envolvidos nos crimes políticos do ano anterior. Mas, ele acrescenta “como esquecer o episódio do Combate da Venda Grande? Como olvidar aquele movimento liberal surgido aqui mesmo, e regado como sacrifício e o sangue de um punhado de nossos conterrâneos?”.

Posteriormente, em 02 de junho de 2002, o mesmo “Correio Popular”, voltou a publicar texto sobre a revolução. A matéria, de Rogério Verzignasse, que também fornecia detalhes sobre a batalha de Vargem Grande, dizia que: “Em 1842, eclodiu em São Paulo a Revolução Liberal, liderada por Rafael Tobias de Aguiar (1795-1857), que havia presidido a província de 1831 a 1835 e de 1840 a 1841. Ele detinha alta popularidade, pois tinha usado os recursos do próprio ordenado nas escolas, obras públicas e na caridade.”

A revolta em São Paulo

Em São Paulo, a oposição à legislação conservadora do governo central evoluiu para uma revolta armada. O pretexto para a rebelião paulista foi a substituição do então Coronel Rafael Tobias de Aguiar, Presidente da Província, pelo Barão de Monte Alegre, José da Costa Carvalho. A revolta liberal eclodiu na manhã de 17 de maio de 1842, na cidade paulista de Sorocaba – cuja câmara aprovou, por aclamação, o nome de Tobias de Aguiar como Presidente da Província, agitação que se estendeu às cidades de Taubaté, Pindamonhangaba, Silveiras e Lorena. Os rebeldes conseguiram também o apoio do padre Diogo Feijó e de Nicolau Pereira de Campos Vergueiro – senadores e ex-regentes do Império – além da população de algumas vilas, entre elas Itapetininga, Itu, Porto Feliz e Capivari. Mesmo idoso e doente, Feijó deslocou-se para Sorocaba – então denominada capital provisória da província – sendo recebido por Tobias de Aguiar. Juntos, os dois líderes rebeldes começaram a escrever um jornal revolucionário, “O Paulista”, de tom arrogante, violento, e trazendo grave ameaça de separatismo.

Sob o comando do Major Francisco Galvão de Barros França, foi constituída a Coluna Libertadora, com efetivo de, aproximadamente, 1.500 homens, para marchar até a capital paulista, a fim de depor o barão de Monte Alegre. O grupo revoltoso possuía bases de apoio logístico em diversas vilas do interior, como Itu, Itapetininga, Sorocaba e Capivari. Monte Alegre, por sua vez, solicitou o apoio do Ministro da Guerra José Clemente Pereira. Preocupado com a possibilidade de separatismo, o governo imperial adotou medidas para debelar a rebelião e, para tal, designou Caxias, que havia pacificado a Balaiada na província do Maranhão.

A ação de Caxias e o combate de Venda Grande

Tão logo recebeu a tarefa de comandar as tropas do Exército Imperial, Caxias rumou para o litoral paulista a bordo do navio Todos os Santos, conduzindo apenas 400 homens pouco experientes. Em São Sebastião desembarcou o 2º Regimento de Artilharia e um batalhão de caçadores, com a missão de marchar em direção a Guaratinguetá e atuar como força de cobertura. A parcela principal das tropas imperiais chegou a Santos, em 21 de maio de 1842, onde desembarcou. Antes de deslocar suas forças em direção ao planalto interior, Caxias expediu ordens para que unidades se deslocassem de Curitiba para a região de Itararé, com o objetivo de isolar a província de São Paulo de possíveis reforços rebeldes procedentes do sul do Brasil. Ciente do fato de que possuía efetivo inferior ao dos rebeldes, o Barão de Caxias marchou em direção ao interior, procurando dar a impressão de que comandava força mais numerosa. Nesse sentido, expediu requisições para serem preparadas rações para 2.000 soldados. Tal fato ludibriou os rebeldes que bivacavam na Ponte dos Pinheiros, fazendo com que se retirassem em direção a Sorocaba.

Os revoltosos, após se reorganizarem, enviaram uma força para tomar de assalto a cidade de Campinas, já em poder de Caxias. Aproximadamente 300 liberais acantonaram na localidade denominada Venda Grande, nos arredores de Campinas, em 7 de junho, quando foram alcançados pelas tropas imperiais. Os rebeldes não perceberam a aproximação de soldados enviados por Caxias e, surpreendidos por um ataque de cavalaria, com o apoio de 120 infantes, artilheiros e guardas nacionais, sob o comando do Coronel Amorim Bezerra, alguns debandaram e outros, apesar de desorganizados, sustentaram a resistência possível. Após a rendição da tropa paulista, contabilizou-se 17 mortos – inclusive seu comandante, Capitão Boaventura Soares do Amaral – e foram feitos 15 prisioneiros. Os legalistas perderam um capitão, duas praças e alguns feridos leves. Os rebeldes remanescentes não tiveram alternativa senão recuar e retornar a Sorocaba, onde acabaram se dispersando tão rapidamente quanto se organizaram.

As forças revoltosas foram eliminadas antes da marcha planejada sobre São Paulo. Rafael Tobias de Aguiar tentou fugir para o Rio Grande do Sul, tentando unir-se aos Farrapos, mas foi capturado e levado ao Rio de Janeiro. Caxias tomou a cidade de Sorocaba e ali prendeu o Padre Feijó que assumira, após a fuga de Tobias de Aguiar, o exercício da “presidência” da província. Tanto os liberais de São Paulo quanto os de Minas Gerais foram derrotados e presos pelos comandados de Caxias. Os que conseguiram escapar refugiaram-se no Rio Grande do Sul, onde foram acolhidos pelos Revolucionários Farroupilhas.

Considerações finais

A Revolta Liberal teve pequena duração, mas, em razão de sua forte motivação político-militar, abalou a Corte no Rio de Janeiro, levando o governo imperial a uma reação rápida e enérgica no sentido de sufocá-la. Apesar dos conflitos armados, o Imperador concedeu, em 14 de março de 1844, anistia aos envolvidos. Um ministério liberal foi constituído neste ano. A vitória sobre os revoltosos rendeu a Caxias a promoção a Marechal-de-Campo.

As operações militares realizadas em São Paulo e Minas Gerais e, principalmente, a ação de comando de Caxias, foram ricas em ensinamentos. Em primeiro lugar, Caxias tratou de colocar a província de São Paulo fora do alcance de possíveis reforços rebeldes, estabelecendo duas forças de cobertura nas regiões de Lorena, divisa com a província do Rio de Janeiro, e Itararé, com tropas procedentes de Curitiba. Tal medida teve por objetivo limitar a área de conflito, o que foi realizado com sucesso.

Nas duas rebeliões, as tropas imperiais bateram-se contra os revoltosos com inferioridade numérica. Caxias não esmoreceu diante dessa desvantagem e conseguiu superá-la dividindo adequadamente suas tropas e empregando táticas de combate indireto, realizando o duplo envolvimento no combate de Santa Luzia. Merece destaque, também, o emprego de operações psicológicas, quando Caxias, por intermédio de uma requisição de alimentação falsa, fez parecer aos adversários que possuía efetivo maior do que o real. A inteligência de combate foi empregada pelas forças imperiais, que buscou levantar o dispositivo defensivo dos liberais no arraial de Santa Luzia antes da realização do ataque.

A liderança de Caxias foi essencial para conduzir suas tropas em marcha forçada sob condições climáticas desfavoráveis, visto que as ações ocorreram sob rigoroso inverno, possibilitando o rápido deslocamento em grandes distâncias. Mesmo com a precariedade da rede de estradas, as tropas imperiais levaram apenas onze dias para vencer os cerca de 340 km que separavam o Rio de Janeiro de Ouro Preto, surpreendendo os revoltosos em Santa Luzia. A mobilidade também foi decisiva em São Paulo, quando as tropas de Caxias alcançaram Campinas antes dos rebeldes, o que permitiu a vitória no combate de Venda Grande. No combate de Santa Luzia, o Barão de Caxias dirigiu pessoalmente uma carga de baioneta contra os revoltosos. Finalmente, a atuação do Exército Imperial brasileiro contra os revoltosos liberais foi decisiva para a manutenção da coesão nacional e da integridade territorial brasileira. A vitória do governo imperial nas Revoltas Liberais representou a consolidação do Império e, com exceção da Revolução Praieira, ocorrida em Pernambuco, entre 1848 e 1849, o Brasil experimentou um longo período de estabilidade política e calmaria interna.

Fotos de Diogo Fernandes Matosinho, que comenta: “Este é o monumento erguido no local pelo CCLA, do qual o Alcides é o presidente… Tirei essas fotos após o evento comemorativo do último 7 de junho.”

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 19 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *