
(…)
V
The yellow glistens.
It glistens with various yellows,
Citrons, oranges and greens
Flowering over the skin.
VI
The shadows of the pears
Are blobs on the green cloth.
The pears are not seen
As the observer wills.
V
O amarelo brilha.
Brilha com vários amarelos,
Limões, laranjas e verdes
Florescendo sobre a pele.
VI
As sombras das peras
São manchas no pano verde.
As peras não se veem
Como o espectador quer.
Wallace Stevens (Reading, Pensilvânia, Estados Unidos, 2 de outubro de 1879 — Hartford, Connecticut, Estados Unidos, 2 de agosto de 1955). In “The palm at the end of the mind. Selected poems and a play”. New York: Vintage Books, 1990, p. 159. Tradução de Olga Guerizoli Kempinska
O pintor Paul Cézanne (Aix-en-Provence, Provença, França, 19 de janeiro de 1839 – 22 de outubro de 1906) inspira versos como esse que falam sobre sobre a cor, a forma, o tempo que não foge na tela, frutas pesadas na mesa, e paisagens esculpidas pela luz. Poetas, como o norte-americano Stevens, traduzem sua pintura paciente em imagens de silêncio e cor que inspiram este poema . E no dizer de Olga Guerizoli Kempinska, em sua tese intitulada “Mallarmé e Cézanne: obras em crise”: “Mas será que é possível dizer as cores? Como dizer as cores de Cézanne, seus amarelos, verdes, azuis, pretos e vermelhos, que se modulam mutuamente em amplas gamas? Esses poucos nomes: amarelo, vermelho, azul (ou ainda o verde, branco, preto?), que apontam idealmente para as cores “puras”, “primeiras” ou “simples”, são por nós usados de maneira tateante e não correspondem à experiência das vibrações mistas e fugazes. Tal como no poema de Stevens, quando a palavra “amarelo” não basta para dar conta da multiplicidade e da complexidade compósita das cores das peras que atingem o olho do espectador, assim nós também procuramos sempre por outros nomes, por “limões” e “laranjas”, apelando para lembranças de objetos de nossas percepções.”