Corrente

De “Meus caros amigos”, 1976.

Eu hoje fiz um samba bem pra frente
Dizendo realmente o que é que eu acho

Eu acho que o meu samba é uma corrente
E coerentemente assino embaixo

Hoje é preciso refletir um pouco
E ver que o samba está tomando jeito

Só mesmo embriagado ou muito louco
Pra contestar e pra botar defeito

Precisa ser muito sincero e claro
Pra confessar que andei sambando errado

Talvez precise até tomar na cara
Pra ver que o samba está bem melhorado

Tem mais é que ser bem cara de tacho
Não ver a multidão sambar contente

Isso me deixa triste e cabisbaixo
Por isso eu fiz um samba bem pra frente

Dizendo realmente o que é que eu acho
Eu acho que o meu samba é uma corrente

E coerentemente assino embaixo
Hoje é preciso refletir um pouco

E ver que o samba está tomando jeito
Só mesmo embriagado ou muito louco

Pra contestar e pra botar defeito
Precisa ser muito sincero e claro

Pra confessar que andei sambando errado
Talvez precise até tomar na cara

Pra ver que o samba está bem melhorado
Tem mais é que ser bem cara de tacho

Não ver a multidão sambar contente
Isso me deixa triste e cabisbaixo

Por isso eu fiz um samba bem pra frente
Dizendo realmente o que é que eu acho

Chico Buarque (Rio de Janeiro, 19 de junho de 1944). Lançada no álbum “Meus caros amigos” (1976), é um samba metalinguístico e irônico que aborda os rumos da música popular e o conformismo social durante o período da ditadura militar. A letra simula uma falsa adesão a um otimismo ufanista para, na verdade, criticar a apatia e a imposição de uma alegria artificial. O autor discute o próprio fazer artístico e o estado do samba na época. O eu-lírico finge concordar que o país e a cultura estão “tomando jeito” e melhorando à força. A suposta felicidade da multidão é tratada como um sintoma triste de conformismo e medo. Nos versos iniciais, o narrador afirma ironicamente que é preciso estar “embriagado ou muito louco” para contestar a realidade vigente e que o samba estaria “bem melhorado” por não tolerar críticas. A metáfora da corrente serve tanto para falar da tradição coletiva do gênero quanto para ilustrar o enquadramento e a marcha imposta pelo autoritarismo da época. Sob a batuta da censura militar, o autor utilizava a persona de um sambista ingênuo ou rendido para expor a dor de ver o povo aplaudir passivamente um cenário de opressão

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 19 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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