Alguns desenhos, dos muitos, de Laércio Moraes

Laércio Moraes (Lalá) nasceu em 7 de setembro de 1963, está com 63 anos, cursou desenho artístico e publicitário na década de 80 e hoje reutiliza várias técnicas. Já participou em exposições no grande ABC e estudou na Fundação das Artes de São Caetano do Sul-SP em 2018.

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Canção do exílio

Minha terra tem macieiras da Califórnia
Onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
São pretos que vivem em torres de ametista,
Os sargentos do exército são monistas, cubistas,
Os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
Com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
Em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
Nossas frutas mais gostosas
Mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
E ouvir um sabiá com certidão de idade!

Murilo Mendes (Juiz de Fora, Minas Gerais, 13 de maio de 1901 — Lisboa, Portugal, 13 de agosto de 1975). In “Em busca de uma poesia universal: Murilo Mendes na Itália (1957-1975)”, de Raphael Salomão Khéde. – 2.ed. rev. aum. – Rio de Janeiro, RJ: Edições Makunaima, 2024; Niterói, RJ: EdUFF, 2024. Nesse poema, publicado por Murilo em seu primeiro livro, “Poemas”, de 1930, percebe-se a presença não prevista de termos da linguagem baixo–cotidiana (“os sururus”, “os cem mil réis”) num poema que parodia a célebre “Canção do exílio” de Gonçalves Dias

14 anos

Tinha eu 14 anos de idade
Quando meu pai me chamou
Perguntou-me se eu queria
Estudar filosofia
Medicina ou engenharia
Tinha eu que ser doutor

Mas a minha aspiração
Era ter um violão para me tornar sambista
Ele então me aconselhou
Sambista não tem valor
Nesta terra de doutor, e seu doutor
O meu pai tinha razão

Vejo um samba ser vendido
E o sambista esquecido
O seu verdadeiro autor
Eu estou necessitado
Mas meu samba encabulado
Eu não vendo não senhor

Tinha eu 14 anos de idade
Quando meu pai me chamou (quando meu pai me chamou)
Perguntou-me se eu queria
Estudar filosofia
Medicina ou engenharia
Tinha eu que ser doutor

Mas a minha aspiração
Era ter um violão para me tornar sambista
Ele então me aconselhou
Sambista não tem valor
Nesta terra de doutor, e seu doutor
O meu pai tinha razão

Vejo um samba ser vendido
E o sambista esquecido
O seu verdadeiro autor
Eu estou necessitado
Mas meu samba encabulado
Eu não vendo não senhor

Paulinho da Viola (Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1942) é um produtor musical, violonista, cavaquinista, bandolinista, cantor e compositor de samba e choro brasileiro, conhecido por suas harmonias sofisticadas e sua voz suave e gentil. Essa canção trata-se de um clássico samba composto por esse portelense, tradicional agremiação azul e branca de Oswaldo Cruz e Madureira

Capim

Capim do Vale, vara de goiabeira na beira do rio
Paro para me benzer
Mãe d’Água sai um pouquinho desse seu leito ninho
Que eu tenho um carinho para lhe fazer

Pinheiros do Paraná
Que bom tê-los como areia no mar
Mangas do Pará, pitombeiras da Borborema
A Ema gemeu no tronco do Juremá

Cacique perdeu mas lutou que eu vi
Jari não é Deus mas acham que sim
Que fim levou o amor
Plantei um pé de fuló deu capim

Capim do Vale, vara de goiabeira na beira do rio
Paro para me benzer
Mãe d’Água sai um pouquinho desse seu leito ninho
Que eu tenho um carinho para lhe fazer

Pinheiros do Paraná
Que bom tê-los como areia no mar
Mangas do Pará, pitombeiras da Borborema
A Ema gemeu no tronco do Juremá

Cacique perdeu mas lutou que eu vi
Jari não é Deus mas acham que sim
Que fim levou o amor
Plantei um pé de fuló deu capim

Djavan (Maceió, Alagoas, 27 de janeiro de 1949). Essa música, lançada no icônico álbum “Luz” em 1982, é uma das canções mais celebradas desse artista. A crítica e o público destacam o contraste entre seus arranjos de inspiração norte-americana, assinados pelo mestre Moacir Santos, e a letra repleta de imagens regionais, metáforas sobre frustrações e as harmonias inconfundíveis do violão