Minha terra tem macieiras da Califórnia
Onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
São pretos que vivem em torres de ametista,
Os sargentos do exército são monistas, cubistas,
Os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
Com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
Em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
Nossas frutas mais gostosas
Mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
E ouvir um sabiá com certidão de idade!
Murilo Mendes (Juiz de Fora, Minas Gerais, 13 de maio de 1901 — Lisboa, Portugal, 13 de agosto de 1975). In “Em busca de uma poesia universal: Murilo Mendes na Itália (1957-1975)”, de Raphael Salomão Khéde. – 2.ed. rev. aum. – Rio de Janeiro, RJ: Edições Makunaima, 2024; Niterói, RJ: EdUFF, 2024. Nesse poema, publicado por Murilo em seu primeiro livro, “Poemas”, de 1930, percebe-se a presença não prevista de termos da linguagem baixo–cotidiana (“os sururus”, “os cem mil réis”) num poema que parodia a célebre “Canção do exílio” de Gonçalves Dias
Que (re)descoberta maravilhosa, caro Eduardo!
Belíssimo poema de um belíssimo poeta!
Ambos, atualmente, quase – ou totalmente – esquecidos…
Parabéns! E obrigado!