Canção do exílio

Minha terra tem macieiras da Califórnia
Onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
São pretos que vivem em torres de ametista,
Os sargentos do exército são monistas, cubistas,
Os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
Com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
Em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
Nossas frutas mais gostosas
Mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
E ouvir um sabiá com certidão de idade!

Murilo Mendes (Juiz de Fora, Minas Gerais, 13 de maio de 1901 — Lisboa, Portugal, 13 de agosto de 1975). In “Em busca de uma poesia universal: Murilo Mendes na Itália (1957-1975)”, de Raphael Salomão Khéde. – 2.ed. rev. aum. – Rio de Janeiro, RJ: Edições Makunaima, 2024; Niterói, RJ: EdUFF, 2024. Nesse poema, publicado por Murilo em seu primeiro livro, “Poemas”, de 1930, percebe-se a presença não prevista de termos da linguagem baixo–cotidiana (“os sururus”, “os cem mil réis”) num poema que parodia a célebre “Canção do exílio” de Gonçalves Dias

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 19 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

Um comentário em “Canção do exílio”

  1. Que (re)descoberta maravilhosa, caro Eduardo!
    Belíssimo poema de um belíssimo poeta!
    Ambos, atualmente, quase – ou totalmente – esquecidos…
    Parabéns! E obrigado!

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