A criança ferida

A criança ferida vai mordê-lo.
A criança ferida vai se tornar
uma criatura assustadora
e mordê-lo aí mesmo onde você está.

A criança ferida verá a pele se formar
sobre o ferimento que recebeu de você
– recebe não, porque o ferimento
não é um presente, um presente é aceito
livremente, e a criança não teve escolha.

Ela vai formar uma pele sobre o ferimento,
o ferimento acumulado, o ferimento que atravessa gerações
e que você extraiu com força de si mesmo feito uma bala
e implantou na carne da criança –
uma pele um couro um pelo
uma crosta escaldada,
e dentes afiados de peixe
como os de um bebê deformado –
e vai mordê-lo

e você vai dizer que não vale
como é o seu hábito
e haverá uma luta
porque você vai tirar a luta da caixa
com o rótulo Lutas que guarda com tanto cuidado
para as emergências, e esta é uma delas,

e a criança ferida perderá a luta
e irá cambaleando
para os subúrbios, e causará
pânico nas drogarias e estrago
nos churrascos
e eles dirão ajudem ajudem um monstro
e sairá no noticiário

e ela será caçada
com cães, e deixará um rastro
de cabelo, pelo, escamas e dentes de leite, e lágrimas
de onde foi rasgada
com vidro quebrado e coisas do tipo

e vai se esconder em canos de esgoto
em depósitos de ferramentas, debaixo de arbusto,
lambendo sua ferida, sua raiva,
a raiva que recebeu de você
e vai se arrastar até o poço

o lago o riacho o reservatório
porque tem sede
porque é monstruosa
com sua sede feroz
que parece toda coberta de espinhas

e os cães e caçadores vão encontrá-la
e ele ficará encurralada
e uivará sobre injustiças
e vão rasgar seu corpo e abri-lo

e vão comer seu coração
e todos darão vivas,
Graças a deus acabou!

E seu sangue escorrerá para dentro d’água
e você vai bebê-lo todos os dias.

Margaret Atwood (Ottawa, Canadá, 18 de novembro de 1939) é uma escritora canadense, romancista, poetisa, contista, ensaísta e crítica literária internacionalmente reconhecida, tendo recebido inúmeros prêmios literários importantes. Foi agraciada com a Ordem do Canadá, a mais alta distinção em seu país. Mundialmente famosa por seus romances distópicos (como “O conto da Aia”), Atwood iniciou sua carreira literária na poesia, aos 16 anos. Seus poemas são marcados por tons irônicos, observações lacônicas sobre costumes contemporâneos, política sexual e a relação humana com a natureza canadense. Sua poética aborda temas que vão desde o cotidiano, em reflexões políticas e sociais, até criações fantásticas, a partir do mundo dos contos de fadas e origens da mitologia. Suas principais coletâneas incluem “The circle game” (1966) e “Os diários de Susanna Moodie” (1970). Uma das principais escritoras da atualidade, destaca-se por obras que ficaram conhecidas em todo mundo a partir de adaptações para o cinema, como o livro “O conto de Aia”, de 1985, e que virou série em 2017, vencendo os mais importantes prêmios do gênero. In “A Porta”, Rocco, 2007. Tradução de Adriana Lisboa. Nota: A literatura do Canadá possui uma rica tradição poética que reflete tanto suas paisagens vastas quanto a complexidade de sua identidade multicultural e bilíngue

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 19 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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