Um velho cruza a soleira
De botas longas, de barbas longas
De ouro o brilho do seu colar
Na laje fria onde coarava
Sua camisa e seu alforje de caçador
O meu velho e invisível
Avôhai
O meu velho e indivisível
Avôhai
Neblina turva e brilhante
Em meu cérebro, coágulos de sol
Amanita matutina
E transparente cortina ao meu redor
Se eu disser que é mei’ sabido
Você diz que é mei’ pior
E pior do que planeta
Quando perde o girassol
É o terço de brilhante
Nos dedos de minha avó
E nunca mais eu tive medo da porteira
Nem também da companheira que nunca dormia só
Avôhai
Avôhai
Avôhai
O brejo cruza a poeira, de fato existe
Um tom mais leve na palidez desse pessoal
Pares de olhos tão profundos
Que amargam as pessoas que fitar
Mas que bebem sua vida, sua alma
Na altura que mandar
São os olhos, são as asas
Cabelos de avôhai
Na pedra de turmalina
No terreiro da usina eu me criei
Voava de madrugada
E na cratera condenada eu me calei
Se eu calei foi de tristeza
Você cala por calar
E calado vai ficando
Só fala quando eu mandar
Rebuscando a consciência com medo de viajar
Até o meio da cabeça do cometa
Girando na carrapeta no jogo de improvisar
Entrecortando, eu sigo dentro a linha reta
Eu tenho a palavra certa pra doutor não reclamar
Avôhai
Avôhai
Avôhai
Avôhai
Zé Ramalho (Brejo do Cruz, Paraíba, 3 de outubro de 1949). Lançada em 1978, essa música é o primeiro grande sucesso e faixa-título do álbum de estreia desse paraibano. A música mistura rock, folk e ritmos nordestinos, homenageando seu avô materno, que o criou após a morte de seu pai. O termo “Avôhai” é uma palavra inventada que une “avô” e “pai”. Esse neologismo surgiu na mente dele durante uma experiência mística com cogumelos alucinógenos, quando a palavra ecoou como um turbilhão de ideias. O avô do cantor assumiu o papel central de criação em Brejo do Cruz após a trágica morte do seu pai. A letra usa termos de emboladas de coco, cantorias de viola e referências geográficas do sertão nordestino. Antes de estourar na voz do autor, a canção foi gravada timidamente pela cantora Vanusa em 1977. A versão de Zé Ramalho de 1978 foi a primeira de sua carreira a tocar nas rádios brasileiras, projetando-o nacionalmente e gerando comparações com o estilo poético de Bob Dylan

