Triste es no

Triste es no
tener amigos
pero más triste
debe ser no tener
enemigos
borque… el que
enemigos no tenga
señal es que
no tiene:
Ni talento que
haga sombra.
Ni caracter
que impressione.
Ni valor temido.
Ni honra que la murmuren.
Ni bienes que se codicien.
Ni cosa buena que se envidie.

José Martí (Havana, Cuba, 28 de janeiro de 1853 — Dos Ríos, pequena localidade pertencente ao município de Jiguaní, Cuba, 19 de maio de 1895)

Amor de índio

Tudo que move é sagrado
E remove as montanhas
Com todo o cuidado
Meu amor
Enquanto a chama arder
Todo dia te ver passar
Tudo viver a teu lado
Com o arco da promessa
Do azul pintado
Pra durar

Abelha fazendo o mel
Vale o tempo que não voou
A estrela caiu do céu
O pedido que se pensou
O destino que se cumpriu
De sentir seu calor
E ser todo
Todo dia é de viver
Para ser o que for
E ser tudo

Sim, todo amor é sagrado
E o fruto do trabalho
É mais que sagrado
Meu amor
A massa que faz o pão
Vale a luz do seu suor
Lembra que o sono é sagrado
E alimenta de horizontes
O tempo acordado de viver

No inverno te proteger
No verão sair pra pescar
No outono te conhecer
Primavera poder gostar
No estio me derreter
Pra na chuva dançar e andar junto
O destino que se cumpriu
De sentir seu calor e ser todo

Beto Guedes (Montes Claros, Minas Gerais, 13 de agosto de 1951) / Ronaldo Bastos (Niterói, Rio de Janeiro, 21 de janeiro de 1948). Canção de 1978

Enteléquia

total
idade
mediada
por ângulos e novas
operações,
triangular-se
mas coordenada
pela posição empírica
do sujeito
a objeções
como
criatura de
30
ou
criatura de
80
dizendo: “a seara
está branca”
em plenitude, resignação
e as superfícies
côncavas, convexas
de Alice B. Toklas
sugerindo a Gertrude Stein
“A rose is a rose is a rose is a rose”
& eu, etc e preferência
escrevo
arroz, arroz, arroz, arroz
ou qualquer brancura
sobre o seu
rosto
sobre o seu
dorso
sobre o seu
sobre
& que eu
sobre quando
esgotarem-se
todas as outras possibilidades eretas
se não
do mundo,
da cidade,
então, esqueça meu nome
se a mim basta-me
um assovio
para que minhas palmas e joelhos
apresentem-se ao seu tapete
e minha saliva não
frustre a minha língua
pois a aprendizagem com
Oswald de Andrade / Frank O’Hara
demonstra que nomear muitas vezes
simplesmente
acalma,
Johannes Göhlich Johannes Göhlich
e venho com este
chamar sua atenção
não-lusófona
conquanto este sujeito
sempre perturba
minhas reflexões
e intromete-se
nos objetos, no ambiente
como se a cutícula
se desprendesse e começasse
a distanciar-se
e fosse obrigado
a admitir
como apêndice
as unhas

Ricardo Domeneck (Bebedouro, São Paulo, 1977). In “Sons: Arranjo: Garganta”, São Paulo: Cosac Naify; Rio de Janeiro: 7 Letras, 2009

Clube da esquina nº 2

Porque se chamava moço
Também se chamava estrada
Viagem de ventania
Nem lembra se olhou pra trás
Ao primeiro passo, aço, aço, aço, aço, aço, aço

Porque se chamavam homens
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Em meio a tantos gases lacrimogênios
Ficam calmos, calmos, calmos, calmos, calmos, calmos, calmos

E lá se vai
Mais um dia
Oh-oh

E basta contar compasso
E basta contar consigo
Que a chama não tem pavio
De tudo se faz canção
E o coração na curva de um rio, rio, rio, rio, rio, rio, rio, rio, rio

De tudo se faz canção
E o coração na curva de um rio, rio, rio, rio, rio

E lá se vai
Mais um dia
Oh-oh

E o rio de asfalto e gente
Entorna pelas ladeiras
Entope o meio-fio
Esquina mais de um milhão
Quero ver então a gente, gente, gente, gente, gente, gente, gente, gente, gente

E lá se vai

Lô Borges (Belo Horizonte, Minas Gerais, 10 de janeiro de 1952 – Belo Horizonte, Minas Gerais, 2 de novembro de 2025) / Márcio Borges (Belo Horizonte, Minas Gerais, 31 de janeiro de 1946)/ Milton Nascimento (Rio de Janeiro, 26 de outubro de 1942). “Clube da Esquina nº 2” é um álbum de 1978, que continua o movimento musical dos artista mineiros iniciado em 1972 com o primeiro álbum. A obra manteve a colaboração coletiva e a diversidade estilística de seu antecessor, sendo lançada como uma continuação do disco original, com 23 faixas em dois LPs. Ele aborda temas de esperança e desespero, refletindo as contradições sociais do Brasil sob o regime militar e explorando a tensão entre o trauma histórico e futuros incertos. O álbum original de “Clube da Esquina” (1972) é considerado o disco mais emblemático do movimento e se destacou pela sua qualidade, sendo reconhecido como um dos álbuns mais importantes da história da música brasileira

Ícaro

A minha dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia…

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor…
E eu levantei a face, a tremer todo:

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.

José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira (Vila do Conde, Portugal, 17 de setembro de 1901 — Vila do Conde, Portugal, 22 de dezembro de 1969). In “Poemas de Deus e do Diabo”