Perfume da rosa

Quem bebe, rosa. o perfume
Que de teu seio respira?
Um anjo, um silfo? Ou que nume
Com esse aroma delira?

Qual é o deus que, namorado,
De seu trono te ajoelha,
E esse néctar encantado
Bebe oculto, humilde abelha?

– Ninguém? – Mentiste: essa frente
Em languidez inclinada,
Quem ta pôs assim pendente?
Dize, rosa namorada.

E a cor de púrpura vida
Como assim te desmaiou?
E essa palidez lasciva
Nas folhas quem ta pintou?

Os espinhos que tão duros
Tinhas na rama lustrosa,
Com que magos esconjuras
Tos desarmaram, ó rosa?

João Baptista de Almeida Garrett (Porto, Portugal, 4 de fevereiro de 1799 – Lisboa, Portugal, 9 de dezembro de 1854). In “Almeida Garrett – Seleção de poema”, Global Editora, 2011

República Federativa do Brasil – Ordem e progresso

Neste sábado, 15/11, são comemorados 136 anos da Proclamação da República ocorrida em 15 de novembro de 1889, que instaurou o presidencialismo no Brasil, encerrando a monarquia parlamentarista vigente durante o Império, destituindo o imperador Pedro II.

Ela ocorreu no Campo de Santana, no Rio de Janeiro, então capital do Império, quando um grupo de militares do exército brasileiro, liderados pelo marechal Manuel Deodoro da Fonseca, destituiu o imperador e assumiu o poder no país, instituindo um governo “provisório” republicano, que se tornaria a Primeira República Brasileira, também conhecida como República Velha.

Bem leve

Bem leve leve, releve
Quem pouse a pele em cima de madeira
Beira beira, quem dera, mera mera, cadeira
Mas breve breve, revele
Vele, vele quem pese, dos pés à caveira
Dali da beira uma palavra cai no chão
Caixão dessa maneira
Uma palavra de madeira em cada mão
Imbuia, Cerejeira

Bem leve leve, releve
Quem pouse a pele em cima de madeira
Beira beira, quem dera, mera mera, cadeira
Mas breve breve, revele
Vele vele quem pese dos pés à caveira

Jacarandá, Peroba, Pinho, Jatobá
Cabreúva, Garapera

Uma palavra de madeira cai no chão
Caixão dessa maneira

Bem leve leve, releve
Quem pouse a pele em cima de madeira
Beira beira, quem dera, mera mera, cadeira
Mas breve breve, revele
Vele, vele quem pese, dos pés à caveira
Dali da beira uma palavra cai no chão
Caixão dessa maneira
Uma palavra de madeira em cada mão
Imbuia, Cerejeira

Jacarandá, Peroba, Pinho, Jatobá
Cabreúva, Garapera

Uma palavra de madeira cai no chão
Caixão, dessa maneira

Arnaldo Antunes (São Paulo, 2 de setembro de 1960) / Marisa Monte (Rio de Janeiro, 1 de julho de 1967). Canção de 1994

Poema cauda

Disse o gato pro rato:
Façamos um trato.
Perante o tribunal eu te denunciarei.

Que a justiça se faça.
Vem deixa de negaça,
É preciso afinal que cumpramos a lei.

Disse o rato pro gato:
– Um julgamento tal,
sem juiz, nem jurado, seria um disparate.
O juiz e o jurado

Serei eu, disse o gato.
E tu, rato, réu nato, eu condeno a meu prato.

Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido pelo seu pseudônimo Lewis Carroll (Daresbury, Inglaterra, 27 de janeiro de 1832 — Guildford, Inglaterra, 14 de Janeiro de 1898). Tradução de Augusto de Campos

Como morreu quem nunca bem

Como morreu quem nunca bem
houve da rem que mais amou,
e que[m] viu quanto receou
dela, e foi morto por em
          ai, mia senhor, assi moir’eu!

Como morreu quem foi amar
quem lhe nunca quis bem fazer,
e de que lhe fez Deus veer
de que foi morto com pesar:
          ai, mia senhor, assi moir’eu!

Com’home que ensandeceu,
senhor, com gram pesar que viu
e nom foi ledo nem dormiu
depois, mia senhor, e morreu:

         ai, mia senhor, assi moir’eu!

Como morreu quem amou tal
dona que lhe nunca fez bem,
e quen’a viu levar a quem
a nom valia, nen’a val:

         ai, mia senhor, assi moir’eu!

Paio Soares de Taveirós (Reino da Galiza, província portuguesa do Minho, Portugal, 1200 – Morte, Desconhecida). In “Poesia medieval – Literatura portuguesa”