Um poema de Chagall e o violinista

O violinista é o motivo mais icônico na sua obra. O artista criou várias versões do tema — como O Violinista (1913) e O Violinista Verde (1923-1924) —, representando o músico flutuando ou dançando sobre os telhados da sua vila natal de Vitebsk. O personagem não é apenas um músico, mas um símbolo central da cultura e da instabilidade da vida judaica no Leste Europeu. Ele acompanha os momentos cruciais da vida (nascimento, casamento e morte). A inspiração vem da tradição do Judaísmo Hassídico, que acreditava ser possível alcançar a comunhão com Deus através da música e da dança. Ao retratar o violinista acima dos telhados da aldeia, Chagall evoca a sua terra natal e a essência da alma humana.

Só é meu
O país que trago dentro da alma.
Entro nele sem passaporte
Como em minha casa.
Ele vê a minha tristeza
E a minha solidão.
Me acalanta.
Me cobre com uma pedra perfumada.
Dentro de mim florescem jardins.
Minhas flores são inventadas.
As ruas me pertencem
Mas não há casas nas ruas.
As casas foram destruídas desde a minha infância.
Os seus habitantes vagueiam no espaço
À procura de um lar.
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Instalam-se em minha alma.
Eis porque sorrio
Quando mal brilha o meu sol.
Ou choro
Como uma chuva leve
Na noite.
Houve tempo em que eu tinha duas cabeças.
Houve tempo em que essas duas caras
Se cobriam de um orvalho amoroso.
Se fundiam como o perfume de uma rosa.
Hoje em dia me parece
Que até quando recuo
Estou avançando
Para uma alta portada
Atrás da qual se estendem muralhas
Onde dormem trovões extintos
E relâmpagos partidos.
Só é meu
O mundo que trago dentro da alma.

Marc Chagall (Vitebsk, Império Russo, atualmente Bielorrússia, 6 de julho de 1887 — Saint-Paul-de-Vence, França, 28 de março de 1985) foi um pintor, ceramista e gravurista modernista judeu belaruso-francês. Pioneiro do modernismo, esteve associado à Escola de Paris e a diversas correntes como o cubismo, o expressionismo e o fauvismo. Criou obras em amplo espectro de formatos — pinturas, desenhos, ilustrações de livros, vitrais, cenários teatrais, cerâmicas, tapeçarias e gravuras. Neste poema encontramos a chave para pormenores recorrentes da sua pintura, como seja o par vagueando no espaço, as faces duplicadas, e por aí adiante. Mas o poema dá-nos mais: dá-nos o retrato de um homem a quem a vida expatriou nas circunstâncias materiais e morais difíceis das perseguições aos judeus na Rússia de finais do século XIX e início do século XX, e que ficaram como marca de água na sua pintura pela vida fora. Tradução de Manuel Bandeira (1886-1968) publicada em “Estrela da Vida Inteira”, 20ª edição, 30ª reimpressão, Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2002

Pássaro e ovo: um ensaio-sonho dedicado a Rubem Valentim

Rubem Valentim (Salvador, Bahia, 1922 – São Paulo, 1991) / Rubem Valentim (Salvador, Bahia, 1922 – São Paulo, 1991) / Artista seminal para entendermos a História da Arte Brasileira, Rubem Valentim encontra na ancestralidade africana e no ativismo negro seus pontos de partida. Baiano, foi pintor autodidata, gravador e escultor, nos apresentando uma linguagem particular, analisada para além da questão geométrica que permeia sua obra, como a abstração geométrica, o construtivismo e o concretismo. Em sua vasta produção, que compreende pinturas, gravuras, serigrafias, totens e esculturas, observamos como o sincretismo religioso, as questões políticas e sociais brasileiras influenciaram seu trabalho. O início de sua produção compreende a década de 1940. Formou-se em jornalismo pela Universidade da Bahia em 1953. Tem obras em acervos de museus e instituições culturais, com participação em importantes exposições individuais e coletivas. (Site: Instituto Rubem Valentim).

” Na medida em que a luz e a sombra dançam sobre os mistérios, o pássaro liberto e selvagem adentra, discreto e distinto, o templo. Sobrevoa e observa os altares. Um vôo solene, circular e sem ruídos. Ele está em movimento e na altura certa de ser sintético com o sagrado, de refletir sobre linhas e curvas e cores que se tornam disformes pela fé humana, mas que sob seus olhos, que se acostumaram com os grafismos terrestres, e sob suas asas que desenham as linhas de seu vôo, são apenas tramas do espírito, organizadas complexamente: contínuas composições emblemáticas. O altar se construía como um encanto planificado. Eu disse a ele, sem saber se ele escutaria: — Rubem, eu consigo ver nas formas os altares. “

Yhuri Cruz (Rio de Janeiro, 1991) é artista visual e escritor, graduado em Ciência Política (UNIRIO) e pós-graduado em Jornalismo cultural (UERJ). Trabalha com questões anticoloniais e raciais, promovendo a intersecção entre sua herança ética e estética familiar e as esferas institucionais e transgressoras do campo artístico. O ensaio-sonho “Pássaro e Ovo” é um texto comissionado pela Collección Patrícia Phelps de Cisneros para o projeto “Rotas Alternativas” com curadoria de Bruno Pinheiro e Horacio Ramos Cerna. 2021 | Editado em 2022

Frida, a poetisa

O Posterbook Frida Kahlo da editora Taschen (1995) traz 6 grandes reproduções destacáveis em alta qualidade, formato 31 x 44 cm (De minha biblioteca particular).

Meu Diego:
Espelho da noite.
Teus olhos, espadas verdes
dentro da minha carne,
ondas entre nossas mãos.
Tudo em um espaço repleto de sons,
na sombra e na luz.
Você era chamado de auxo-cromo: aquele que captura a cor.
Eu, cromófore: aquele que dá cor.
Vocês são todas as combinações
dos números
da vida.
Meu desejo é compreender linhas, formas, sombras, movimento.
Você realiza e eu recebo.
Sua palavra percorre a totalidade do espaço e alcança minhas células,
que são minhas estrelas,
e então vai para as suas, que
são minha luz.

Frida Kahlo (Coyoacán, México, 6 de julho de 1907 – 13 de julho de 1954) foi uma pintora mexicana conhecida pelos seus muitos retratos, autorretratos, e obras inspiradas na natureza e artefatos do México. In “Retrospectiva de Frida Kahlo – O diário de Frida Kahlo: Um autorretrato íntimo”

Verso do Poema Sujo fundindo a genialidade de Volpi com as cores e as formas (trecho)

As bandeirinhas são o motivo mais famoso do pintor ítalo-brasileiro Alfredo Volpi. Nascido na Itália e radicado em São Paulo, ele retratou a cultura popular brasileira, especialmente as festas juninas, transformando decorações simples em arte abstrata e geométrica de grande sofisticação. Elas apareceram em sua obra na década de 1940. Inicialmente, elas apareciam em cenas festivas, compondo cenários com casarios e fachadas. Com o tempo, o artista estilizou tanto as formas que as bandeirinhas passaram a dominar a tela, transformando-se em composições puramente geométricas marcadas por ritmo visual e cores vibrantes.

[…]
como um monturo de trapos sujos
latas velhas
colchões usados
sinfonias sambas e frevos
azuis de Fra Angelico
verdes de Cézanne
matéria-sonho de Volpi.
Mas sobretudo meu corpo nordestino
mais que isso maranhense
[…]

Ferreira Gullar, pseudônimo de José Ribamar Ferreira (São Luís, Maranhão, 10 de setembro de 1930 – Rio de Janeiro, 4 de dezembro de 2016). Gullar tinha grande admiração por Alfredo Volpi (Lucca, Itália, 14 de abril de 1896 — São Paulo, 28 de maio de 1988) e, além da poesia, o poeta maranhense escreveu textos críticos exaltando como o pintor traduzia a alma brasileira sem precisar apelar para folclores ou obviedades, afirmando que o pintor ensinava a “ser brasileiro sem se preocupar com isso”

Trechos de dois poemas de Egon Schiele

Autorretrato

“Sou por mim e por aqueles para quem a sede ébria de liberdade presenteia tudo comigo, e também por todos, porque a todos amo — amor.
Estou entre os mais nobres e entre aqueles que correspondem.
Aquele que mais corresponde
Sou humano, amo a morte e amo a vida.”

(1910)

Sol

“Provar o rubor, cheirar os sonolentos ventos brancos, olhá-lo no universo: sol.
Contemple as estrelas amarelas e brilhantes, até você se sentir bem e ter que bloquear o piscar.
Mundos cerebrais brilham em suas cavernas.”

Célebre estrofe publicada na coletânea Ich ewiges kind (Eu, eterno menino)

Egon Schiele (Tulln an der Donau , Áustria, 12 de junho de 1890 — Viena , Áustria, 31 de outubro de 1918) foi um pintor expressionista austríaco. Esses poemas refletem a mesma intensidade visceral de sua arte visual, explorando o corpo, a liberdade e a agonia da existência. Escritos no início do século XX, seus textos ganharam publicações póstumas e traduções internacionais