Isabel Cordeiro: Um delicioso final de férias na minha cidade natal – Livramento, Bahia

A bagagem que trago de volta está cheia de carinho, lembranças de pessoas queridas, lugares lindos e situações de plena contemplação, que só aconchego da família e das duas cidades que amo, Livramento e Rio de Contas, poderiam me dar. Momentos únicos, com minha amiga Maira…

No canto do passarinho ao amanhecer.

Na prosa com a vizinha

No moleque que corre as ruas de pedra

Nas mais belas palmeiras à beira da estrada

No cheiro de mato

Na poeira da estrada de terra

No ranger da ponte de tábua

Na criança que trazia na garupa da bicicleta

Na rima da menina que gritava “chicotinho queimado? É bom, é bom”

Nas longas caminhadas até a beira do rio

Na elegância da cachoeira

Na garotinha que soletrava o alfabeto baiano

Nos passeios entre os casarões, vielas e ruas de pedras

E, ao entardecer, a cadeira na porta, os causos com pessoas que aprendemos a admirar.

Para tudo isso, um até breve

Fotos e texto de Isabel Cordeiro, professora da Jacarandá berçário e educação infantil

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O Estrangeiro (Trecho da primeira parte)

Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo:
“Sua mãe falecida: Enterro amanhã. Sentidos pêsames”.
Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.
O asilo de velhos fica em Marengo, a oitenta quilômetros de Argel.
Tomo o autocarro das duas horas e chego lá à tarde.
Assim, posso passar a noite a velar e estou de volta amanhã à noite.
Pedi dois dias de folga ao meu chefe e, com um pretexto destes, ele não me podia recusar. Mas não estava com um ar lá muito satisfeito.
Cheguei mesmo a dizer-lhe “A culpa não é minha”. Não respondeu.
Pensei então que não devia ter dito estas palavras.
A verdade: é que eu não tinha que me desculpar: Ele é que tinha de me dar pêsames. Mas com certeza o fará, depois de amanhã, quando me vir de luto. Por agora é um pouco como se a mãe não tivesse morrido. Depois do enterro, pelo contrário, será um caso arrumado e tudo passará a revestir-se de um ar mais oficial.
Tomei o autocarro às duas horas. Estava calor. Como de costume, almocei no restaurante do Celeste. Estavam todos com muita pena de mim, e o Celeste disse-me “Mãe, há só uma”.
Quando saí, acompanharam-me à porta. Estava um pouco atordoado e tive que ir à casa do Manuel para lhe pedir emprestados um fumo e uma gravata preta. O Manuel perdeu o tio, há meia dúzia de meses.
Tive que correr para não perder o autocarro. Esta pressa, esta correria, e talvez também os solavancos, o cheiro da gasolina, a luminosidade da estrada e do céu, tudo isto contribuiu para que eu adormecesse no caminho. Dormi quase todo o tempo. E quando acordei, estava apertado de encontro a um soldado, que me sorriu e me perguntou se eu vinha de longe.
Disse que sim, para não ter que voltar a falar.

Albert Camus (Mondovi, Argélia, 7 de novembro de 1913 – Villeblevin, França, 4 de janeiro de 1960). In “O Estrangeiro”. Tradução de Antônio Quadros, 1942

Projeto de Leonardo Almeida: “Amigos de Vinilsom”, venham conhecer!

Brinquedo pedagógico lúdico para adultos e crianças com o objetivo de estimular a criatividade, as habilidades motoras e auxiliar na pausa das telas eletrônicas.

Todas as peças são feitas com papel 100% reciclável, aprovados por pedagogos e psicólogos. Além de sustentável, o design e toda matéria prima do projeto é 100% nacional.

Leonardo Almeida – Designer e diretor de arte: Fundador da L2A Design. Formado em Desenho Industrial com habilitação em Programação Visual, atuando nas áreas de Direção de Arte, UX Design, UI Design, Design de Marcas, Fotografia, Ilustração e Design Gráfico.

Contatos:
leonardo@l2adesign.com.br
WhatsApp: (11) 9 9885-9001

A galinha reivindicativa ou The hen’s liberation

Em certo dia de data incerta, um galo velho e uma galinha nova encontraram-se no fundo de um quintal e, entre bicada e outra, trocaram impressões sobre como o mundo estava mudado. O galo, porém, fez questão de frisar que sempre vivera bem, tivera muitas galinhas em sua vida sentimental e agora, velho e cansado, esperava calmamente o fim de seus dias.

_ Ainda bem que você está satisfeito – disse a galinha – E tem razão de estar, pois é galo. Mas eu galinha, posso estar satisfeita? Não posso. Todo dia pôr ovos, todo semestre chocar ovos, criar pintos, isso é vida? Mas agora a coisa vai mudar. Pode estar certo de que vou levar uma vida de galo, livre e feliz. Há já seis meses que não choco e há uma semana que não ponho ovo. A patroa se quiser que arranje outra para esses ofícios. Comigo não, violão!

O velho galo ia ponderar filosoficamente que galo é galo e galinha é galinha e que cada ser tem sua função específica na vida, quando a cozinheira, sorrateiramente, passou a mão no pescoço da doidivanas e saiu com ela esperneando, dizendo bem alto: _ “A patroa tem razão: galinha que não choca nem põe ovo só serve mesmo é pra panela”!

Moral: Um trabalho por jornada mantém a faca afastada.

Millôr Fernandes (Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923 — 27 de março de 2012). In “Fábulas Fabulosas” (Ilustração do autor), Rio de Janeiro: Círculo do livro por cortesia da Editora Nórdica Ltda., 1973

Memórias do Cárcere – Volume II (Trecho)

Gaúcho começou a procurar-me. A noite acocorava-se junto à minha esteira, ficava até a hora do silêncio a entreter-me com a narração das suas complicadas aventuras. Esforçava-me por entendê-lo, às vezes o interrompia buscando compreender alguma expressão de gíria. Vanderlino trocava-me em linguagem comum a prosa obscura, e na ausência dele a conversa arrastava-se, cheia de equívocos e repetições.

– Os homens, dizia Gaúcho, dividem-se em duas classes: malandros e otários, e os malandros nasceram para engrupir os otários.

Ria-me com a franqueza do meu esquisito amigo:

– Eu, naturalmente, devo figurar na categoria dos otários, não é verdade?

– Se vossa mercê não é malandro… Só há duas classes.

Logo no segundo ou terceiro encontro o arrombador me fez esta observação curiosa:

– Vossa mercê usa panos mornos comigo, parece que tem receio de me ofender. Não precisa ter receio, não; diga tudo: eu sou ladrão.

– Sim, sim, retruquei vexado. Mas isso muda.

Lá fora você pode achar ofício menos perigoso.

– Não senhor, nunca tive intenção de arranjar outro ofício, que não sei nada. Só sei roubar, muito mal: sou um ladrão porco.

Diversos profissionais corroboravam esse juízo severo, ostentavam desprezo à modesta criatura. Eram em geral vaidosos em excesso, fingiam possuir qualidades extraordinárias e técnica superior. Tentavam enganar-nos, talvez enganar-se, mentiam, queriam dar a impressão de realizar trabalho perfeito. Não se misturavam com os indivíduos comuns, e o natural expansivo do escrunchante exasperava-os. Obtive lápis, papel, comecei de novo a tomar notas, embora fosse quase certo jogá-las fora.

(…)

Graciliano Ramos (Quebrangulo, Alagoas, 27 de outubro de 1892 – Rio de Janeiro, 20 de março de 1953). In “Memórias do cárcere” – Volume II, Capítulo 17, Literatura comentada, Nova Cultural, 1988