Mais um dos poemas de Portinari no Projeto Centenários (Metrô Higienópolis/ Mackenzie)

“Mestiço”, pintado em 1934 por Candido Portinari / “O negro foi tema constante em toda a obra do meu pai. Assis Chateaubriand chegou a escrever um texto dizendo que Portinari era o maior pintor de negros das Américas”.
João Candido Portinari, diretor do Projeto Portinari

Não me quiseram, enjeitaram
Minhas palavras…
Serei um dos meus espantalhos?
Afugento os caminhantes?
Não, eles se afugentam. Não
Entendem a lua
Não sabem da poesia
Só não estou, mesmo não estando
Comigo. Converso com o vento e a
Tempestade.
De noite ou dia – verei as sombras
E dormirei em paz. Tenho uma
Camisa. Meu leito é embaixo das
Árvores. Tranquilo ouço o rumorejar
Das folhas secas…

Candido Portinari (Brodowski, São Paulo, 29 de dezembro de 1903 – Rio de Janeiro, 6 de fevereiro de 1962) foi um artista plástico brasileiro, considerado um dos mais importantes pintores de nosso pais de todos os tempos, sendo o que mais alcançou projeção internacional. A exposição imersiva ‘Parada Portinari’, que integra o Projeto Centenários, conta com a exibição do Carrossel Raisonné com projeção de mais de 5 mil obras de Portinari, além de 44 réplicas das obras do pintor distribuídas pela estação Higienópolis/ Mackenzie, Linha 4 – Amarela do Metrô de São Paulo. A exposição foi viabilizada pelo Grupo CCR em parceria com o Projeto Portinari e busca proporcionar ao público uma forma de democratização do acesso à cultura

Jorge de Lima, panfletário do caos

Foi no dia 31 de dezembro de 1961 que te compreendi Jorge de Lima
enquanto eu caminhava pelas praças agitadas pela melancolia presente
         na minha memória devorada pelo azul
eu soube decifrar os teus jogos noturnos
indisfarçável entre as flores
uníssonos em tua cabeça de prata e plantas ampliadas
como teus olhos crescem na paisagem Jorge de Lima e como tua boca
         palpita nos bulevares oxidados pela névoa
uma constelação de cinza esboroa-se na contemplação inconsútil
          de tua túnica
e um milhão de vaga-lumes trazendo estranhas tatuagens no ventre
          se despedaçam contra os ninhos da Eternidade
é neste momento de fermento e agonia que te invoco grande alucinado
          querido e estranho professor do Caos sabendo que teu nome deve
          estar como um talismã nos lábios de todos os meninos

Roberto Piva (São Paulo, 25 de setembro de 1937 – São Paulo, 3 de julho de 2010) foi um poeta brasileiro. In “Paranóia (Massao Ohno)”, 1963. Marcada pelo experimentalismo, múltiplos diálogos e alta qualidade das imagens poéticas, sua obra é uma das mais intensas da poesia brasileira contemporânea

O pequeno circo

Abrindo caminho a quadriga anda
Em branco manejo. O clown recebe
A bofetada pela multidão aplaudida
Bravo Paul Albert e François

Sobre seu caule içada a flor dança
Concentrada, o bufão a dominando
Entre laços de fogo, criando
Por terra uma imensa roseta.

Um inesperado trapezista
Ramón Gómez de la Serna
Desenrolando longas dobras premia
O preço, e sua felicidade assiste

O circo armado de Apollinaire
De Laurencin, d’Arthur Rimbaud
E de Seurat um grande seio
Mirífico círculo lunar

Vicente do Rego Monteiro (Recife, Pernambuco, 19 de dezembro de 1899 — 5 de junho de 1970) foi um pintor, desenhista, escultor, professor e poeta brasileiro. In “Agulha revista de cultura”, criada por Floriano Martins, número 122, novembro de 2018

De “O amor talvez seja o que do nada resta”

É poesia a silenciosa
distância entre a emoção
e o seu canto

Domingo

As aspirações mais exaltadas
em abismos profundos
separadas pela realidade do quotidiano

Os pequenos gestos repetidos do dia-a-dia
repetidos interminavelmente
repetidos automaticamente
repetidos necessariamente
repetidos resignadamente
repetidos cansativamente
repetidos exasperadamente
repetidos exaustivamente
repetidos inconscientemente

Repetido o beijo do “até logo”
é já um adeus ignorado

O acordar
o adormecer
deixam-nos em abismos profundos
separadas pela realidade do ontem hoje amanhã
das ambições antigas vivas futuras

Nesse domingo em que eras tu o meu amor

Ambição de agora agora
e já
para cada folha uma gota de orvalho
que o Sena amoroso, deslizando colhe sôfrego
enlaçando Paris apaixonado lento e insistente
apertado no mesmo abraço
a mulher desmaiada
ultrapassado do orgasmo o êxtase
atingida a luxúria exasperada e pura

Nesse Domingo em que eras tu o meu amor

Ambicão ambições
de carregar as roseiras de violetas
apanhadas às mãos cheias, não importa onde
às acácias mimosas vergar os galhos
de cerejas aos cachos
dos lírios do jardim delirantes
voarem para o cipreste sentinela à porta

Nesse Domingo em que eras tu o meu amor

os melros passeavam ousados e sem medo
atrevidos na relva
nos muros as trepadeiras, estremecendo
ao canto dos pássaros em mal de bem querer
floriam em pétalas de lua e aos de espuma
fitas de olhos em laços de afecto
colares de estrelas negras na verdade branca
secretos luxos da minha ideia
renegando o tempo

Nesse Domingo em que eras tu o meu amor

Era Domingo
outro Domingo
Domingos
segunda
terça
quarta
quinta
sexta-feira
sábados
repetidos
os pequenos gestos do dia-a-dia
repetidos intencionalmente
repetidos carinhosamente
repetidos tristemente
repetidos raivosamente
repetidos teimosamente
repetidos dolorosamente
repetidos passivamente
repetidos distraíramo-nos

e o beijo do “até logo”
foi adeus definitivo

Merícia de Lemos (Beira, Moçambique, 24 de abril de 1918 – Paris, França, 1996). In “Tangentes” e “12 Poemas”. Tirado do blog “Vicio da poesia” de Carlos Mendonça Lopes