Embolada do coco

Eu tiro o coco quebro o coco rapo o coco
Eu como coco, não deixo o coco sobrar
Eu tiro o coco quebro o coco rapo o coco
já estou dentro desse coco e deixo o coco farrear

Coco, cocada, cajibrina cabaré
Carreiro, carru, carré
Candieiro e carcará
Caju, cajá
Cabrito e cachorro louco
Eu tiro o coco, quebro o coco e não deixo o coco sobrar

Eu tiro o coco quebro o coco rapo o coco
Eu como coco, não deixo o coco sobrar
Eu tiro o coco quebro o coco rapo o coco
Já estou dentro desse coco e deixo o coco farrear

Eu tiro o coco quebro o coco rapo o coco
Eu como coco, não deixo o coco sobrar
Eu tiro o coco quebro o coco rapo o coco
já estou dentro desse coco e deixo o coco farrear

Coco, cocada, cajibrina cabaré
Carreiro, carru, carré
Candieiro e carcará
Caju, cajá
Cabrito e cachorro louco
Eu tiro o coco, quebro o coco e não deixo o coco sobrar

Eu tiro o coco quebro o coco rapo o coco
Eu como coco, não deixo o coco sobrar
Eu tiro o coco quebro o coco rapo o coco
já estou dentro desse coco e deixo o coco farrear

Composição de José Albertino da Silva, conhecido como Caju (São Lourenço da Mata, Pernambuco, 15 de abril de 1962 – Recife, Pernambuco, 8 de junho de 20012001). A embolada ou coco-de-embolada é um ritmo tradicional do Nordeste brasileiro, famoso pelo ritmo acelerado, o uso do pandeiro e letras rítmicas e bem-humoradas, frequentemente baseadas no improviso. Este é um dos maiores clássicos do gênero e é interpretada pela dupla José Albertino da Silva (Caju) e José Roberto da Silva (Castanha)

A poesia em prosa de José Lins

O açude de pedra… As águas paradas onde os marrequinhos nadavam. A sombra dos cajueiros nas tardes quentes de sol. E eu ali, menino de engenho, vendo o mundo passar, no silêncio daquela imensidão verde.

José Lins do Rêgo (Pilar, Paraíba, 3 de junho de 1901 — Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1957) foi um escritor brasileiro que, ao lado de Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, Rachel de Queiroz e Jorge Amado, figura como um dos romancistas regionalistas mais prestigiosos da literatura nacional. Ele não publicou livros de poemas em verso. Ele é célebre como romancista da Geração de 1930, mas sua prosa é considerada “poesia em prosa” devido ao forte lirismo, à musicalidade e ao ritmo poético presentes na sua narrativa. Acima trecho adaptado de “Menino de Engenho”, sua obra mais famosa

Soneto a Lasar Segall

De inescrutavelmente no que pintas
Como num amplo espaço de agonias
Imarcescível música de tintas
A arder na lucidez das coisas frias:

Tão patéticas sois, tão sonolentas
Cores que o meu olhar mortificais
Entre verdes crestados e cinzentas
Ferrugens no prelúdio dos metais.

Que segredo recobre a velha pátina
Por onde a luz se filtra quase tímida
Do espaço silencioso que esculpiste

Para pintar sem gritos de escalarte
Na profunda revolta contra o crime
Daqueles que fizeram a vida triste?…

Rio, 1942

Vinicius de Moraes (Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1913 – Rio de Janeiro, 9 de julho de 1980). In “Livro de sonetos de Vinicius de Moraes”, Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1957

Versos de um gênio do repente

Nessa vida atribulada
O camponês se flagela
Chega em casa meia noite
Tira a tampa da panela
Vê o poema da fome
Escrito no fundo dela.

*

Deus querendo, todos comem
Que um dia Ele pregando
Mais de cinco mil pessoas
Que estavam lhe observando
Com cinco pães e dois peixes
Comeram e ficou sobrando.

*

Eu admiro muito o padre
Que seu conselho tem luz
Toda sua pregação
Nasce nos braços da cruz
Massa de trigo em mãos dele
Vira corpo de Jesus.

*

É, bonito, é saudoso, é natural
O cenário do campo sertanejo.
No sertão, todo dia, bem cedinho
Vê-se um galo descendo do poleiro,
Um cabrito berrando no chiqueiro,
No terreiro, fuçando, um bacorinho.
Um preá sai torcendo o seu focinho,
Como um cego tocando realejo;
Na cozinha, uma velha espreme o queijo,
Um bezerro pulando no curral.
O retrato do corpo natural
É a veste do homem sertanejo.

*

O meu verso é como a foice
De um brejeiro cortar cana.
Sendo de cima pra baixo,
Tanto corta, como abana,
Sendo de baixo pra cima,
Voa do cabo e se dana.

*

E o boi tristonho a puxar
O carro pela rodagem,
De tanta fome e de sede,
Chega a lhe faltar coragem,
Se vendo a listra de lágrimas
Correr na cara selvagem.

*

Botei espora nos pés,
Pulei em cima do bicho,
Entrei na mata fechada
Coberta de carrapicho,
Dando manobra na sela,
Chega rangia o rabicho.

*

São quatro peitos roliços
Que, unidos, fazem cama.
Todos quatro são furados
E o leite não se derrama,
Mas sai com facilidade
Depois que o bezerro mama.

Manoel Xudu (São José dos Ramos, localizado na região de Itabaiana, Paraíba, 15 de março de 1932 – Salgado de São Félix, Paraíba, 1985). Foi um gênio da poesia popular nordestina e um dos maiores artistas que se conheceu na arte de improvisar versos ao som de uma viola no mundo mágico dos cantadores repentistas

O primeiro repente acima foi recomendado em conversa afinada com o fotógrafo de rua, retratos e foto-documentário, escritor, dramaturgo e professor de história pernambucano Tiago da Silva Palma (@tiago_historiarte) em um papo gostoso na festa junina desse ano na Bibli-Aspa.

Garoto das meias vermelhas

Ele era um garoto triste. Procurava estudar muito.
Na hora do recreio ficava afastado dos colegas, como se estivesse procurando alguma coisa.
Todos os outros meninos zombavam dele, por causa das suas meias vermelhas.
Um dia, o cercaram e lhe perguntaram porque ele só usava meias vermelhas.
Ele falou, com simplicidade: “no ano passado, quando fiz aniversário, minha mãe me levou ao circo”.
Colocou em mim essas meias vermelhas.
Eu reclamei. Comecei a chorar.
Disse que todo mundo iria rir de mim, por causa das meias vermelhas.
Mas ela disse que tinha um motivo muito forte para me colocar as meias vermelhas.
Disse que se eu me perdesse, bastaria ela olhar para o chão e quando visse um menino de meias vermelhas, saberia que o filho era dela.”

“Ora”, disseram os garotos. “mas você não está num circo.
Por que não tira essas meias vermelhas e as joga fora?”
O menino das meias vermelhas olhou para os próprios pés, talvez para disfarçar o olhar lacrimoso e explicou: “é que a minha mãe abandonou a nossa casa e foi embora”.
Por isso eu continuo usando essas meias vermelhas.
“Quando ela passar por mim, em qualquer lugar em que eu esteja, ela vai me encontrar e me levará com ela.”

Muitas almas existem, na Terra, solitárias e tristes, chorando um amor que se foi.
Colocam meias vermelhas, na expectativa de que alguém as identifique, em meio à multidão, e as leve para a intimidade do próprio coração.
São crianças, cujos pais as deixaram, um dia, em braços alheios, enquanto eles mesmos se lançaram à procura de tesouros, nem sempre reais.
Lesadas em sua afetividade, vivem cada dia à espera do retorno dos amores, ou de alguém que lhes chegue e as aconchegue.
Têm sede de carinho e fome de afeto.
Trazem o olhar triste de quem se encontra sozinho e anseia por ternura.
São idosos recolhidos a lares e asilos, às dezenas.
Ficam sentados em suas cadeiras, tomando sol, as pernas estendidas, aguardando que alguém identifique as meias vermelhas.
Aguardam gestos de carinho, atenções pequenas.
Marcam no calendário, para não se perderem, a data da próxima visita, do aniversário, da festividade especial.
Aguardam…

São homens e mulheres que se levantam todos os dias, saem de casa, andam pelas ruas, sempre à espera de alguém que partiu, retorne.
Que o filho que tomou o rumo do mundo e não mais escreveu, nem deu notícia alguma, volte ao lar.
São namorados, noivos, esposos que viram o outro sair de casa, um dia, e esperam o retorno.
Almas solitárias. Lesadas na afetividade. Carentes.

Pense nisso!
O amor, sem dúvida, é lei da vida.
Ninguém no mundo pode medir a resistência de um coração quando abandonado por outro.
E nem pode aquilatar da qualidade das reações que virão daqueles que emurchecem aos poucos, na dor da afeição incompreendida.
Todos devemos respeito uns aos outros.
Somos responsáveis pelos que cativamos ou nos confiam seus corações.
Se alguém estiver usando meias vermelhas, por nossa causa, pensemos se esse não é o momento de recompor o que se encontra destroçado, trabalhando a terra do nosso coração.
A maior de todas as artes é a arte de viver juntos.

Carlos Heitor Cony (Rio de Janeiro, 14 de março de 1926 — Rio de Janeiro, 5 de janeiro de 2018) foi um jornalista, cronista e escritor brasileiro. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2000, foi colunista do jornal Folha de S.Paulo e comentarista da rádio CBN

Um ano sem Marco, sentida ausência de um grande cara

Amanhã, 28 de junho, fará um ano da partida de meu querido primo-irmão Marco, que se foi cedo, com 77 anos… Encomendei uma missa pela sua alma a ser realizada nesse domingo, 28/06, às 19:30 horas, na Paróquia Santa Teresinha, localizada na Rua Maranhão, 617 – Higienópolis, São Paulo – SP – Telefone: (11) 3660-1220. Nesse mesmo domingo, às 19:00 horas, haverá outra missa no Santuário Nossa Senhora Aparecida do Vagão Queimado, localizada na Av. Gastão Vidigal, 385 – Jardim Matilde, Ourinhos – SP – Telefone: (14) 3326-8890, encomendada pelo filho de meu primo Marco, de nome Rodrigo Martins Silva.

Saúdo meu primo materno Marco Aurélio da Silva (Ourinhos/ SP, * 29/09/1948 – + 28/06/2025)!

Deixou saudades em sua esposa Nanci, em seus queridos filhos Viviane, Maíra e Rodrigo, em sua neta Maria Clara, nos demais parentes e em seus muitos amigos, entre os quais o popular “Boca”.