Autor: ematosinho
A D. Ângela
Anjo no nome, Angélica na cara,
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós se uniformara?
Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?
Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.
Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.
Gregório de Matos (Salvador, Bahia, 23 de dezembro de 1636 – Recife, Pernambuco, 26 de novembro de 1696)
Queria ser uma abelhinha
Amor
Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!
Na tu’alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!
Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!
Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!
Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!
Álvares de Azevedo (São Paulo, 12 de setembro de 1831 — Rio de Janeiro, 25 de abril de 1852)
No pano, no óleo
Canto primo
Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura,
ché la diritta via era smarrita.
Canto primeiro (trecho inicial)
Em meio do caminho desta vida
Achei-me um dia numa selva escura,
Muito longe da senda já perdida.
Dante Alighieri (Florença, Itália, entre 21 de maio e 20 de junho de 1265 – Ravena, Itália, 13 ou 14 de setembro de 1321). In “A divina comédia, o inferno”. São Paulo: Cia Brasil Editora, 1947. (Tradução de Domingos Ennes)
Flor de amarilis
Livros e flores
Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?
Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?
Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 – Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908). In “Falenas”. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1870
Enluarada
Canto de regresso à pátria (Quebrado em dois por mim)
Uma metade
Minha terra…
Onde gorjeia…
Os passarinhos…
Não cantam…
Minha terra…
E quase que…
Minha terra…
Minha terra…
Ouro terra…
Eu quero…
Não permita…
Sem que…
Não permita…
Sem que volte…
Sem que veja…
E o progresso…
Outra metade
… tem palmares
… o mar
… daqui
… como os de lá
… tem mais rosas
… mais amores
… tem mais ouro
… tem mais terra
… amor e rosas
… tudo de lá
… Deus que eu morra
… volte para lá
… Deus que eu morra
… pra São Paulo
… a Rua 15
… de São Paulo
Oswald de Andrade (São Paulo, 11 de janeiro de 1890 — São Paulo, 22 de outubro de 1954). Publicado em 1924 na revista “Pau Brasil” e depois, no livro homônimo (“Poesia Pau Brasil”), em 1925. O texto é intertextual ao poema “Canção do exílio”, escrito em 1843 por Gonçalves Dias. Além de Oswald de Andrade, Casimiro de Abreu também fez uma paródia do poema “Canção do exílio” de Gonçalves Dias, que começa com os versos “Minha terra tem palmeiras, onde canta o Sabiá”