
Esse manuscrito acima e autografado do famoso poema tipográfico “Un coup de dés jamais n’abolira le hasard”, de Stéphane Mallarmé, foi vendido por € 963 mil (R$ 4,1 milhões) no leilão da biblioteca do poeta francês organizada pela casa Sotheby’s de Paris.
O manuscrito, estimado entre € 500 mil e € 800 mil, foi comprado pelo colecionador francês Marcel Brient. O poema foi redigido por Mallarmé (1842-1898) no início de 1897 para ser impresso pelo comerciante de arte e editor Ambroise Vollard.
“Un coup de dés jamais n’abolira le hasard”, que em português seria algo como “Um lance de dados jamais abolirá o acaso”, é o título do primeiro poema tipográfico de que se tem notícia, ou seja, um poema que explora as possibilidades da tecnologia de impressão de textos, publicado em 1897 na revista “Cosmopolis” pelo poeta simbolista Stéphane Mallarmé (Paris, França, 18 de março de 1842 – Valvins, comuna de Vulaines-sur-Seine, Seine-et-Marne, França, 9 de setembro de 1898).
A respeito da estrutura do poema, o poeta não considerava mais que as linhas que o compunham pudessem ser consideradas como verso, chamando-as de “subdivisões prismáticas”. Formando “ilhas de significação” e “brancos”, o poema aproveita o espaço da página para indicar o ritmo da leitura e as pausas.
A poesia tipográfica de Mallarmé deu origem a várias experiências do tipo, praticadas pelos futuristas no início do século XX, dando impulso à nova poesia da chamada por alguns de “segunda vanguarda”, os movimentos surgidos a partir da década de 1950, relacionados, principalmente, à visualidade da obra poética.
Em dezembro de 1896, Ambroise Vollard oferece a Mallarmé a oportunidade de publicar um “livro de arte”, o que nunca ocorreu.
Foi traduzido em português pelo poeta Haroldo de Campos, utilizando recursos visuais semelhantes aos do poema original.
Ambroise Vollard (Saint-Denis de La Réunion, comuna e subúrbio ao norte de Paris, França – 3 de julho de 1866 – Versalhes , França, 21 de julho de 1939) foi um negociante de arte francês considerado um dos mais importantes negociantes de arte contemporânea francesa do início do século XX. Ele é reconhecido como um grande apoiador e defensor dos artistas contemporâneos de seu período, proporcionando visibilidade e apoio emocional a inúmeros artistas então desconhecidos, incluindo Paul Cézanne , Aristide Maillol , Pierre-Auguste Renoir , Louis Valtat , Pablo Picasso , André Derain , Georges Rouault , Paul Gauguin e Vincent van Gogh.
Vollard nasceu na ilha Réunion, um território ultramarino francês localizado próximo a Madagascar. Em pouco tempo ele ascende como colecionador e marchand, por sua grande visão e pelo momento propício, com Manet (1832-1883) a preços pouco elevados e Renoir (1841-1919), Cézanne (1839-1906) e Degas (1834-1917) ainda rejeitados ou quase desconhecidos. Em 1893, Vollard abre uma pequena galeria na rue Laffitte, conhecida como rue des tableaux (rua dos quadros), onde os três artistas, então já seus amigos, iriam desfrutar de jantares em sua companhia, na adega de seu estabelecimento. Rapidamente ele se coloca em posição de destaque no ambiente artístico da época. Sua galeria se torna o centro de convergência dos jovens artistas dedicados a desenvolver os controvertidos movimentos artísticos que hoje conhecemos como modernos.
Quando é posto à venda, em 1894, o acervo da pequena galeria que Père Tanguy, fornecedor de tintas de Van Gogh (1853 -1890) e dos impressionistas, mantinha junto à sua loja, Vollard compra quatro quadros de Cézanne, um Van Gogh e um Gauguin (1848 – 1903) a bons preços. Nesse ano realiza a primeira exposição na rue Laffitte, composta por um conjunto de desenhos de Manet, e passa a conhecer Berthe Morisot (1841 – 1895), Monet (1840 – 1926) e outros artistas do mesmo círculo. Em 1895, organiza a primeira exposição de Cézanne, pintor que sempre permaneceu como seu preferido. Mantém constante relação com os impressionistas Degas e Renoir, com Gauguin, com os nabis Bonnard (1867-1947), Denis (1870 – 1943) e Roussel (1867 – 1944), e também com Redon (1840 – 1916) e Forain (1852 – 1931).
Unindo um senso aguçado para as artes com uma grande aptidão comercial, Vollard cresce rapidamente em conceito com grandes colecionadores, como Camondo e Stschoukine. Alguns pintores, como Gauguin, reclamavam da avareza de Vollard, que costumeiramente impunha suas próprias condições de negociação. Em 1901, na mesma galeria onde Vollard expõe Redon e Van Gogh, em sua primeira exposição de fato, o jovem Pablo Picasso (1881 – 1973) tem a oportunidade de expor pela primeira vez em Paris. Embora não fazendo muito sucesso, ele terá o apoio do marchand, que mais tarde irá publicar uma de suas mais respeitadas obras gráficas, a Suite Vollard.
Surgem nesse momento publicações ilustradas que dão outra dimensão ao relacionamento entre texto e imagem, como Pleïade, Decadent, Vogue, Plume, Mercure de France, L’Estampe originale que, em 1893 ganhou uma litogravura colorida de Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901) na capa de sua primeira edição (figura ao lado), e La Revue Blanche (figura abaixo), revista literária e artística para a qual Pierre Bonnard, em 1894, contribuiu também com uma litografia colorida para a capa. Esse novo encontro dos artistas com as publicações se dá, não coincidentemente, no momento em que a fotografia inicia seu percurso inexorável em direção às páginas das publicações.
O desenvolvimento de técnicas de impressão de imagens fotográficas como a Zincografia e, em 1872, a impressão baseada em xilografia de topo, contribuem para uma reinterpretação dos métodos tradicionais. Frantz Calot escreve em seu L’art du livre en France : des origines à nos jours (1931) sobre essa reinterpretação das técnicas tradicionais de gravura: “C’est le contraire de la prétendue gravure qui s’ingénie à maquiller, à masquer le travail du graveur, qui l’amène a ressembler à la simple reproduction photographique. La mécanique suffit pour ce beau résultat…” (Isto é o contrário da gravura que pretensamente se esforça para disfarçar, para mascarar o trabalho do gravador, que conduz a um simples olhar para uma reprodução fotográfica. É a mecânica suficiente para este belo resultado…).
A ideia de convidar pintores a imprimirem litogravuras para publicação não é novidade, já em 1862 Cadart, um editor da geração precedente e co-fundador, com Bracquemond (1833 – 1914), da Sociedade de Água-Fortistas, havia encomendado litogravuras a Manet (1832 – 1883), Legros (1837 – 1911), Fantin-Latour (1836 – 1904), Ribot (1823 – 1891) e Bracquemond. Por não ter gostado do resultado decidiu não imprimi-las, mas a partir dessa experiência Fantin-Latour continuou praticando e, eventualmente, se juntaram a ele Manet, Whistler (1834 – 1903), Degas, Pissarro (1830 – 1903) e, principalmente, a partir de 1879, Redon (1840 – 1916). Fantin-Latour e Redon criaram a Sociedade dos Litógrafos Franceses, e fizeram sua primeira exposição em 1891.
Fonte: Ambroise Vollard, por Cláudio Jansen Ferreira (2012)