A Narcisa Amália
Teus cantos o esplendor e a formosura
Da noite exalçam… Lânguido arrepio
Percorre as folhas… Que fragrância pura
Respira em torno o laranjal sombrio!
Doce palpita a brisa na espessura
Das sebes vivas… Suspiroso, o rio
A ribanceira em flor beija, e murmura
A espreguiçar-se no seu leito frio…
E um poema de amor que eu ouço; há tantas
Rosas a abrir no campo: e, cento e cento,
Rompem astros no páramo infinito…
Canta! Eu releio o poema que tu cantas.
Nessa página azul que o firmamento
Desdobra, todo em letras de ouro escrito…
Raimundo Correia (São Luís, Maranhão, 13 de maio de 1859 — Paris, França, 13 de setembro de 1911). In “Aleluias”, 1891
Nota: Narcisa Amália (São João da Barra, Rio de Janeiro, 3 de abril de 1852 — Rio de Janeiro, 24 de julho de 1924) foi um ídolo feminino do final do nosso Romantismo após publicar, em 1872, o livro “Nebulosas”, que alcançou grande repercussão. De feição condoreira, com visível influência de Castro Alves. “Poema da Noite” é um registro do encontro entre o futuro grande parnasiano e o nome feminino mais notável do nosso Romantismo