Capítulo 5 – Clarice mãe (Trecho)
– Eu sei uma palavra nova: caricatura.
– Sabe o que quer dizer?
– Sei. É assim: se você põe um chapéu na cabeça de um cachorro, isso é uma caricatura.
Mais tarde:
– Algumas pessoas parecem caricaturas.
– Por quê?
– Porque não parecem de verdade.
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(Comentário das organizadoras Teresa Montero e Lícia Manzo):
Na década de cinquenta, período em que vive em Washington, Clarice Lispector mantém um caderno intitulado Conversas com P. onde registra diálogos com seus filhos ainda pequenos, Pedro e Paulo.
Passagens escritas em português alternam-se com outras, em inglês, já que mãe e filhos costumavam falar os dois idiomas dentro de casa. Em entrevista para o Jornal do Brasil, em 1977, Clarice afirma: “A maçã no escuro eu escrevi em Washington, sentada no sofá da sala com a máquina no colo, para que os meus filhos não tivessem junto de si uma escritora, e sim uma mãe acessível.” De fato, ao longo da vida, Clarice manteria a mesma postura, produzindo grande parte de sua obra em meio a seu cotidiano doméstico.
(…)
Em Conversas com P. – publicado em sua versão integral na presente edição – Clarice produz anotações que possivelmente a fazem refletir sobre o comentário do escritor Pedro Bloch (reproduzido por ela em uma de suas crônicas): “Para captar tantas coisas maravilhosas ditas pelas crianças é só ter ouvidos de ouvir criança. (…) Aprendo com as crianças tudo o que os sábios ainda não sabem.”
Clarice Lispector (Tchetchelnik, Ucrânia, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977). In “Outros escritos/ Clarice Lispector”; organização de Teresa Montero e Lícia Manzo. Rio de Janeiro: Rocco, 2005