Há luz na sombra

Para Marco Giannotti

No encontro das cores
surgem variantes
em suaves declínios de luz

matizes murmuram entre si
em contida algaravia
de um edifício em construção

linhas cruzam o espaço
vastos territórios
vastos horizontes

janelas que se abrem
para outras janelas
nelas nem tudo transparece

todavia as sombras
bem sabemos
ocultam formas que mal vemos

no seu intenso embate com a luz

Fabio Magalhães (São Paulo, 5 de novembro de 1942) – Fábio Luiz Pereira de Magalhães é museólogo, crítico de arte e curador. Estudou história da arte no Masp e na FAAP. Frequentou também o Instituto de Arte e Arqueologia em Paris. Foi diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo e ex-curador chefe do Masp, secretário da Cultura do Município de São Paulo, presidente da Embrafilme, presidente da Fundação Memorial da América Latina e curador de Bienais de Artes Visuais do Mercosul em Porto Alegre

El hacedor / O fazedor

Ajedrez

También el jugador es prisionero
(la sentencia es de Omar) de otro tablero
de negras noches y de blancos días.

Dios mueve al jugador, y éste, la pieza.
¿Qué Dios detrás de Dios la trama empieza
de polvo y tiempo y sueño y agonía?

Nessas estrofes Borges usa seus versos para levantar questões filosóficas e apresentar ao leitor sua particular concepção de mundo.

Jorge Luis Borges (Buenos Aires, Argentina, 24 de agosto de 1899 — Genebra, Suíça, 14 de junho de 1986). Es un libro de poemas y textos en prosa escrito por el autor argentino Jorge Luis Borges y publicado en el año 1960 y combina poemas breves y relatos cortos en prosa. Está dedicado a Leopoldo Lugones, una figura clave de la literatura argentina y explora la memoria, el tiempo, los sueños, los espejos y la identidad. En ”El hacedor” confluyen las simbologías de Oriente y Occidente, el cosmos y las cosmogonías, los siglos, las dinastías, lo universal y lo profundamente local: Heráclito, Homero, Dante con Rosas, Facundo y Juan Muraña. Tal diversidad de temasse corresponde con una multiplicidad de géneros. Así, los relatos, poemas y ensayos de estas páginas terminan configurando uno de los libros más personales del autor; una miscelánea que da cuenta de las preocupaciones que recorren toda la obra borgeana

O livro “El hacedor”, 1960 (“O fazedor”, na tradução brasileira), traz em si vários elementos que o qualificam como excelente porta de entrada ao denso (e, por que não, algo mitificado) universo literário de seu autor, Jorge Luis Borges. Aparentemente, trata-se de um livro banal, uma miscelânea de contos curtos e de poemas metrificados. Entretanto, nada mais enganoso que deixar-se levar pelas aparências e pela indicação da contracapa. Em primeiro lugar, porque este livro tem o mérito de romper com o hiato lírico na obra de Borges, autor que nos anos 40 e 50 brindou aos leitores apenas livros de ensaios e contos, embora entre estes encontrem-se maravilhas do quilate de “Ficções” (1944) e “O Aleph” (1949). Ainda com respeito aos poemas, é bom notar que eles são compostos por versos metrificados, os quais são adotados tanto pelo esgotamento da estética ultraísta quanto pela suposta facilidade de seu manejo por um homem que a essa altura já estava de todo cego.

Aparências

De Chirico pinta a ausência
com minúcia na sua representação
um trem percorre a tela
e sua fumaça é luto no espaço

a arquitetura é pura geometria
mas a torre é uma torre
e seu volume avulta-se
sobre a praça

o mundo é um plano de fuga
e na planura habitam vazios
nos horizontes e nas perspectivas
reina solidão

tudo na tela é enigma
mistério que desmancha o real
tudo existe
e tudo não existe

o trem em movimento
move-se
como um relógio parado
porque o tempo e o movimento são vertigens

De Chirico pinta a memória
e sua cartografia
estabelece o contorno insular
das coisas e dos seres

tudo é ancestral
diante da fragilidade da existência
assim o remoto se faz presente
no espelho que reflete a eternidade

Fabio Magalhães (São Paulo, 5 de novembro de 1942) – Fábio Luiz Pereira de Magalhães é museólogo, crítico de arte e curador. Estudou história da arte no Masp e na FAAP. Frequentou também o Instituto de Arte e Arqueologia em Paris. Foi diretor da Pinacoteca do Estado de São Paulo e ex-curador chefe do Masp, secretário da Cultura do Município de São Paulo, presidente da Embrafilme, presidente da Fundação Memorial da América Latina e curador de Bienais de Artes Visuais do Mercosul em Porto Alegre