Autor: ematosinho
Seis frases de Fernando Sabino
“Façamos da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança,
do medo uma escada,
do sonho uma ponte, da procura um encontro!”
“O diabo desta vida é que entre cem caminhos temos que escolher apenas um, e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove.”
“Não confio em produto local. Sempre que viajo levo meu uísque e minha mulher.”
“Infidelidade é como apanhar o seu sócio roubando dinheiro do caixa.”
“Os homens se dividem em duas espécies: os que têm medo de viajar de avião e os que fingem que não têm.”
“No dia em que a mulher descobre que o homem, pelo simples fato de ser seu marido, é também seu cônjuge, coitado dele.”
Fernando Sabino (Belo Horizonte, 12 de outubro de 1923 — Rio de Janeiro, 11 de outubro de 2004)
Valdir Sarubbi: Falando de açaí…
Selecionei um trecho do conto chamado “Passarinhada”, escrito pelo artista paraense Valdir Sarubbi, que foi meu saudoso professor de pintura. Ele era um leitor muito dedicado e um profundo conhecedor de literatura. Na última fase de sua vida ele se empenhou em escrever memórias e contos. Neste trecho do seu livro “Estórias paralelas” ocorre um diálogo entre personagens que falam sobre passarinhos e comidas, em especial, o açaí.
(…)
“Levanta o bracinho fino e aponta com o dedo mais fino ainda para o galho abarrotado de frutinhas. Com a outra mão leva as frutas à boca. Os olhos estão no galho repleto e por isso, em vez da boca, a azeitona roxa, quase preta, vai para o terreno entre os lábios e o nariz. Aí, com o acalcamento, espoca. O cíclame matiza o catarro que vai para a boca. O galho está cheio de frutas maduras. Caticó bate no galho. O Zeca aparece correndo, afogueado.
– Caticó, o danado tá lá…
As azeitonas no galho.
– Hum?
– O danado… o curió preto…
– Olha como tem azeitona, Zeca!…
– Num gosto de azeitona…M’impresta o alçapão… Onde está?
– Tá lá…
Zeca de novo, correndo, pegando o alçapão de Caticó, desaparecendo no mato. Pimpim cospe fora uma azeitona. Caticó se volta.
– Que foi, Pimpim? Engoliu caroço?
Pimpim tem o rosto assustado.
– Tomei açaí. Faz mal…
Caticó se volta para o outro galho.
– Intão num come mais.
Pimpim faz cara de choro.
– Hu…hu…hu…
– Chora, não, Pimpim. Vai sentá ali, vai…
Pimpim se afasta, manquejando.
– Vô morrê… Hu…hu…hu…
– Morre nada! Vai pr’ali…
(…)”
Estórias paralelas, 1999, 140 páginas

Valdir Sarubbi (Bragança, Pará, 10 de outubro de 1939 – São Paulo, 8 de novembro de 2000)
Bola na quadra
Silêncio
Língua das coisas
Mas também: língua de se falar
com as coisas
e com as próprias palavras
O nome das coisas
quando não falamos delas
Único modo que têm os mortos
de cantar
O que há entre uma xícara e outra xícara
entre uma pedra e uma rosa
entre Vênus e uma cadeira
O modo como soa
uma palavra
riscada
Toda fala nasce com a cicatriz do silêncio,
que foi quebrado
Não há palavra que não seja marcada pelo silêncio
como camisas que secaram
presas ao varal
Por outro lado, frequentemente o silêncio
vem manchado por uma palavra
como um espelho sujo
A forma mais próxima do silêncio é o círculo:
forma geométrica da espera
O rastro que deixou
o animal que não passou
É este o meu nome
quando não me chamas
Ana Martins Marques (Belo Horizonte, Minas Gerais, 1977), In “Risque esta palavra”, 2021. Com graduação em Letras, escreveu uma dissertação de mestrado sobre João Gilberto Noll e concluiu seu doutorado em literatura comparada na UFMG. Nesse ano de 2024 foi indicada entre os 5 finalistas do Prêmio Jabuti no eixo poesia pelo seu livro “De uma a outra ilha”, Editora Círculo de Poemas
Pedra n’água
És dos céus o composto mais brilhante
Marília, nos teus olhos buliçosos
Os Amores gentis seu facho acendem;
A teus lábios, voando, os ares fendem
Terníssimos desejos sequiosos.
Teus cabelos subtis e luminosos
Mil vistas cegam, mil vontades prendem;
E em arte aos de Minerva se não rendem
Teus alvos, curtos dedos melindrosos.
Reside em teus costumes a candura,
Mora a firmeza no teu peito amante,
A razão com teus risos se mistura.
És dos Céus o composto mais brilhante;
Deram-se as mãos Virtude e Formosura,
Para criar tua alma e teu semblante.
Manuel Maria Barbosa du Bocage (Setúbal, Portugal, 15 de setembro de 1765 – Lisboa, Mercês, Portugal, 21 de dezembro de 1805)
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Marília de Dirceu (Trecho)
Lira III
De amar, minha Marília, a formosura
Não se podem livrar humanos peitos:
Adoram os heróis, e os mesmos brutos
Aos grilhões de Cupido estão sujeitos.
Quem, Marília, despreza uma beleza
A luz da razão precisa,
E se tem discurso, pisa
A lei, que lhe ditou a Natureza.
Cupido entrou no céu. O grande Jove
Uma vez se mudou em chuva de ouro;
Outras vezes tomou as várias formas
De general de Tebas, velha e touro .
O próprio deus da guerra desumano
Não viveu de amor ileso:
Quis a Vênus e foi preso
Na rede, que lhe armou o deus Vulcano.
Mas sendo amor igual para os viventes,
Tem mais desculpa, ou menos esta chama:
Amar formosos rostos acredita ,
Amar os feios, de algum modo infama.
Quem lê que Jove amou, não lê nem topa,
Que ele amou vulgar donzela:
Lê que amou a Dânae bela,
Encontra que roubou a linda Europa.
Se amar uma beleza se desculpa
Em quem ao próprio céu e terra move:
Qual é a minha glória, pois igualo
Ou excedo no amor ao mesmo Jove?
Amou o pai dos deuses soberano
Um semblante peregrino;
Eu adoro o teu divino,
O teu divino rosto, e sou humano.
Tomás António Gonzaga (Miragaia, Porto, 11 de agosto de 1744 — Ilha de Moçambique, 1810), cujo nome arcádico é Dirceu