hoje

sou uma das coisas
raras do planeta
capaz de dar à vida
tudo que ela tem de luz

flor
que aberta
traria da água escura
o pólen, a fruta

dia
que tiraria
de dentro da noite
o lado oculto da lua

tão rara
e como eu
todas as sementes
que o vento arranca de tudo
e atira no nada

Alice Ruiz (Curitiba, 22 de janeiro de 1946). In “Vice-versos”, 1988

A mulher e o reino

Oh! Romã do pomar, relva esmeralda
Olhos de ouro e azul, minha alazã
Ária em forma de sol, fruto de prata
Meu chão, meu anel, cor do amanhã

Oh! Meu sangue, meu sono e dor, coragem
Meu candeeiro aceso da miragem
Meu mito e meu poder, minha mulher

Dizem que tudo passa e o tempo duro
tudo esfarela
O sangue há de morrer

Mas quando a luz me diz que esse ouro puro se acaba pôr finar e corromper
Meu sangue ferve contra a vã razão
E há de pulsar o amor na escuridão

Ariano Suassuna (João Pessoa, Paraíba, 16 de junho de 1927 – Recife, Pernambuco, 23 de julho de 2014). In “Poemas”. Recife: Editora Universitária da UFPE, 1999

Borges: Labirintos centenários…

O jornal Estadão publicou por ocasião do centenário de Borges o seguinte texto: “Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires, em 24 de agosto de 1899. Um dos mais brilhantes e polêmicos escritores do século XX deixou, em seus contos, poemas e ficções, os seres imaginários, as metáforas e universos insondáveis que recorrem sempre a uma obsessão: o labirinto. Na data comemorativa de seu nascimento, o leitor pode caminhar pelos “Labirintos centenários” e encontrar, nos portais como retrato do escritor, textos e imagens que acompanharam Jorge Luis Borges na trajetória de sua vida. Sua relação com a política, a escrita, as mulheres ou o trabalho conjunto com o amigo Bioy Casares. Nos caminhos deste labirinto, pode-se achar os espelhos e os tigres, para, no fim do corredor – “no porão da sala de jantar” – deparar-se com a extraordinária visão do Aleph, “um lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do mundo, visto de todos os ângulos” e a figura mitológica do Minotauro, que reúne todas as matérias desta data especial. Para entrar neste labirinto basta procurar – o retrato de Borges – e se deixar levar por seus mundos imaginários…”

Jorge Luis Borges (Buenos Aires, Argentina, 24 de agosto de 1899 — Genebra, Suíça, 14 de junho de 1986)

Nothing

Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
Um para-brisa partido uma perna quebrada
O nada
Fisionomias massacradas
Tipoias em meus amigos
Portas arrombadas
Abertas para o nada
Um choro de criança
Uma lágrima de mulher à-toa
Que quer dizer nada
Um quarto meio escuro
Com um abajur quebrado
Meninas que dançavam
Que conversavam
Nada
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel’s check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada.
“Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada”!

Patrícia Galvão, conhecida como Pagu (São João da Boa Vista, São Paulo, 9 de junho de 1910 – Santos, São Paulo, 12 de dezembro de 1962). Publicado em “A Tribuna”, Santos/SP, em 23/09/1962

Tuas mãos

Quando tuas mãos saem,
amada, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?

Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.

A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.

Pablo Neruda (Parral, Chile, 12 de julho de 1904 — Santiago, Chile, 23 de setembro de 1973)