A voz

É tão suave ess’hora,
Em que nos foge o dia,
E em que suscita a Lua
Das ondas a ardentia,

Se em alcantis marinhos,
Nas rochas assentado,
O trovador medita
Em sonhos enteado!

O mar azul se encrespa
Coa vespertina brisa,
E no casal da serra
A luz já se divisa.

E tudo em roda cala
Na praia sinuosa,
Salvo o som do remanso
Quebrando em furna algosa.

Ali folga o poeta
Nos desvarios seus,
E nessa paz que o cerca
Bendiz a mão de Deus.

Mas despregou seu grito
A alcíone gemente,
E nuvem pequenina
Ergueu-se no ocidente:

E sobe, e cresce, e imensa
Nos céus negra flutua,
E o vento das procelas
Já varre a fraga nua.

Turba-se o vasto oceano.
Com hórrido clamor;
Dos vagalhões nas ribas
Expira o vão furor

E do poeta a fronte
Cobriu véu de tristeza;
Calou, à luz do raio,
Seu hino à natureza.

Pela alma lhe vagava
Um negro pensamento,
Da alcíone ao gemido,
Ao sibilar do vento.

Era blasfema ideia,
Que triunfava enfim;
Mas voz soou ignota,
Que lhe dizia assim:

“Cantor, esse queixume
Da núncia das procelas,
E as nuvens, que te roubam
Miríades de estrelas,

E o frémito dos euros,
E o estourar da vaga,
Na praia, que revolve,
Na rocha, onde se esmaga,

Onde espalhava a brisa
Sussurro harmonioso,
Enquanto do éter puro
Descia o Sol radioso,

Tipo da vida do homem,
É do universo a vida:
Depois do afã repouso,
Depois da paz a lida.

Se ergueste a Deus um hino
Em dias de amargura;
Se te amostraste grato
Nos dias de ventura,

Seu nome não maldigas
Quando se turba o mar:
No Deus, que é pai, confia,
Do raio ao cintilar.

Ele o mandou: a causa
Disso o universo ignora,
E mudo está. O nume,
Como o universo, adora!”

Oh, sim, torva blasfémia
Não manchará seu canto!
Brama a procela embora;
Pese sobre ele o espanto;

Que de sua harpa os hinos
Derramará contente
Aos pés de Deus, qual óleo
Do nardo recendente.

Alexandre Herculano (Lisboa, Portugal, 28 de março de 1810 – Quinta de Vale de Lobos, Azoia de Baixo, Santarém, Portugal, 13 de setembro de 1877)

Trecho de uma das Cartas portuguesas

Estou viva, infiel que sou! E faço tanto para
conservar a minha vida como para perdê-la! Ah!, morro de
vergonha! O meu desespero estará então apenas nas minhas
cartas? Se te amasse tanto como mil vezes te tenho dito, não teria
já morrido há muito tempo?
Enganei-te!, e és tu que te deves queixar de mim. Ai de
mim!, e porque o não fazes? Vi-te partir, não posso ter esperança
de te ver voltar, e, no entanto, respiro! Enganei-te, afinal, e peço
o teu perdão.

Sóror Mariana Alcoforado, pseudônimo de Mariana Mendes da Costa Alcoforado ou Mariana Vaz Alcoforado (Beja, Santa Maria da Feira, Portugal, 22 de abril de 1640 – Beja, Portugal, 28 de julho de 1723). In “Cartas portuguesas”, p. 47

Ontem pôs-se o sol

Ontem pôs-se o sol, e a noute
cobriu de sombra esta terra.
Agora é já outro dia,
tudo torna, torna o sol;
só foi a minha vontade,
para não tornar c’o tempo!

Tôdalas cousas, per tempo,
passam, como dia e noute;
ua só, minha vontade,
não, que a dor comigo a aterra;
nela cuido em quanto há sol,
nela enquanto não há dia.

Mal quero per um só dia
a todo outro dia e tempo,
que a mim pôs-se-me o sol
onde eu só temia a noute;
tenho a mim sôbre a terra,
debaxo minha vontade.

Dentro na minha vontade
não há momento do dia
que não seja tudo terra;
ora ponho a culpa ao tempo,
ora a torno a pôr à noute:
no milhor pon-se-me o sol!

Primeiro não haverá sol
que eu descanse na vontade.
Pon-se-me ua escura noute
sôbre a lembrança de um dia…
Inda mal porque houve tempo
e porque tudo foi terra.

Haver de ser tudo terra
quanto há debaixo do sol
me descansa, porque o tempo
me vingará da vontade;
se não que antes dêste dia
há-de passar tanta noute!

Bernardim Ribeiro (Torrão, Portugal, 1482 — Lisboa, Portugal, 1552). In “Antologia poética”

Um cavaleiro havia

Rubrica:

Esta cantiga de cima foi feita a um Meestre d’ordim de cavalaria, porque havia sa barragãã e fazia seus [filhos] em ela ante que fosse Meestre; e depois havia ũa tenda em Lisboa, em que tragia mui grande haver a gaanho; e aquela sa barregãã, quando lhi algũus dinheiros vinham da terra da Ordem e que Meestre i nom era, enviava-os aaquela tenda, pera gaanharem com eles pera seus filhos; e depois tirarom ende os dinheiros da tenda e derom-nos em outras praças pera gaanharem com eles, e ficou a tenda desfeita; e nom leixou por en o Meestre depois a [barre]gãã.

Um cavaleiro havia
ũa tenda mui fremosa
que, cada que nela siia,
assaz lh’era saborosa;
e um dia, pela sesta,
u estava bem armada
de cada part’, espeçada
foi toda pela Meestra.

Na tenda nom ficou pano
nem cordas nem guarnimento
que toda nom foss’a dano,
pelo apoderamento
da Maestra, que, tirando
foi tanto pelo esteo,
que por esto, com’eu creo,
se foi toda [e]speçando.

A corda foi em pedaços
e o mais do al perdudo;
mais ficarom-lhi dous maços
[a] par do esteo merjudo,
e a Maestra metuda
na grand’estaca, jazendo;
e foi-s’a tenda perdendo
assi como é perduda.

Per míngua de bom meestre
pereceo tod’a tenda;
que nunca se dela preste
pera dom nem pera venda,
ca leixou, com mal recado,
a Meestra tirar tanto
da tenda, que, já enquanto
viva, seerá posfaçado.

Pedro de Barcelos, pseudônimo de Conde Pedro Afonso de Barcelos (1287 – Lalim, Portugal, entre 2 de fevereiro e 5 de julho, 1354). Cantiga de escárnio e maldizer

Amiga, o coração seu

Amiga, muit’ha gran sazón
que se foi d’aquí con el-rei
meu amigo, mais ja cuidei
mil vezes no meu coraçón
      que algur morreu con pesar,
      pois non tornou migo falar.

Porque tarda tan muito lá
e nunca me tornou veer,
amiga, si veja prazer,
máis de mil vezes cuidei ja
      que algur morreu con pesar,
      pois non tornou migo falar.

Amiga, o coraçón seu
era de tornar ced’aquí,
u visse os meus olhos en mí,
e por én mil vezes cuid’eu
      que algur morreu con pesar,   
      pois non tornou migo falar.

Dom Dinis, 6º rei de Portugal (Santarém, Portugal, 9 de outubro de 1261 – Lisboa, Portugal, 7 de janeiro de 1325). In “Antologia poética”

Herê Fonseca: Corpus Christi e seu tapete devocional

Nesta quinta-feira, 19 de junho, as ruas do centro histórico de Diamantina ganharam cor e devoção com a confecção dos tapetes devocionais de Corpus Christi. A ação contou com a participação das paróquias, dos alunos das escolas que integram o programa municipal de educação patrimonial, De Olho no Patrimônio e de Herê Fonseca.

Herê Fonseca vive e trabalha em Diamantina, MG. Nasceu em 1975, em Alfenas, MG, morou em Sorocaba, SP; em Cuiabá, MT; no Rio de Janeiro, RJ; em Vitória, ES e em Piracicaba, SP. Trabalhou no atelier do pai, Tião Fonseca, com esculturas e diversas técnicas em artes plásticas. Tem curso superior em Artes Plásticas, com licenciatura em Educação Artística, Tatuí, SP. Realizou vários cursos de aperfeiçoamento em Artes Visuais entre eles Arte e Cidade na Universitat Politecnica da Catalunya, Barcelona, Espanha, em 2006 e O exercício e a Compreensão das Artes Plásticas Contemporâneas na Pinacoteca Miguel Dutra, Piracicaba, SP, em 2007.
Foi selecionado e catalogado pelo Mapa Cultural Paulista expondo na Sala São Paulo da Estação Julio Prestes com a obra “Defesa”. Selecionado pelo 6º Salão de artes plásticas de Cerquilho, SP, na modalidade pintura.
Entre as exposições individuais estão: Fragmentos, traços e cacos em composição, 2018, Pátio Cianê, Sorocaba, SP; Combinatórias, 2017, Hall da Câmara Municipal de Sorocaba; Combinatórias, 2016, Galeria do Palacete Scarpa, Musicarte no hall do Teatro da UFMT, 2015; Cubo Negro no MACP e Pavilhão das Artes em Cuiabá, 2011, curadoria de Ludmila Brandão; Trilhas dos traços, no MISC, Cuiabá MT, 2010; Esculturas em Movimento na Casa de Cultura da América Latina em Brasília, DF, 2009; Oscilações no Sesc Arsenal em Cuiabá, MT, 2009; Exposição de máscaras no Ateliê Herê Fonseca em Piracicaba, SP, 2008; Aéreas, na Galeria Unimep, Piracicaba, SP, 2005; Espaço aquário em Votorantim, SP, 2003; Garatujas ao vento na Casa do Povoador, Centro Cultural da Rua do Porto em Piracicaba, SP, 2001, Ensaios, na Galeria UNIMEP, 1998.
Realizou várias exposições coletivas entre elas: O que é que a cidade tem? curadoria de José Serafim Bertoloto em 2015; Percurso no MACP curadoria de Aline Figueiredo em 2014; In Dios sincronias no MACP Cuiabá, MT , 2013; Mostra de Arte Contemporânea Pavilhão das Artes Cuiabá, MT, 2012; Panorama das Artes mato-grossenses, PAM, 2012, Circuito Cultural Setembro Freire, Pavilhão das Artes, Cuiabá, MT, 2010; Mostra de Arte Contemporânea no Engenho Central, Piracicaba, SP, 2004; Fragmentos e Segmentos da Arte Contemporânea, Galeria do Teatro Losso Neto, Piracicaba, SP, 2000.
Entre as cenografias estão a do curta-metragem Bolhas de Sabão desmancham no ar e Licor de Pequi de Marithe Azevedo. Trabalha com esculturas aéreas em movimento, esculturas estáveis, tempera sobre papel, acrílico sobre tela, murais, esculturas em argila, máscaras, empapelamentos, pinturas em seda, objetos. De 2009 a 2015 participou de intervenções/poéticas urbanas na cidade de Cuiabá com o coletivo à deriva, prêmio Salão Jovem Arte de 2012 com a instalação Cidade Reinventada.

Contatos:
www.facebook.com/here.fonseca
www.instagram.com/herefonseca
www.instagram.com/vivadiamantina
herefonseca@gmail.com
WhatsApp: (15) 9 8146-1552
http://arteherefonseca.blogspot.com