Eis-me aqui de novo em meu subúrbio
Esta casa
que mais uma vez trocarei por outra
O quarto onde já não me tranco para escrever
(não é essa a minha única contradição)
O que minha janela me oferece
um pedaço de rua
onde passam mais carros que pedestres
Um trecho de céu opaco
e tão baixo
que os pássaros nele roçam suas asas
Sobre minha mesa
as cartas se acumulam
Sob meu cotovelo
Ao lado
a máquina de lavar gira
faz desaparecer de minhas roupas
o cheiro da viagem
O telefone toca
Como um autômato
eu estendo a mão
e me rendo à realidade
Abdellatif Laâbi (Fez, Marrocos, 1942) é um poeta, jornalista, romancista, dramaturgo, tradutor e ativista político marroquino. Laâbi formou-se em Literatura Francesa pela Universidade de Rabat e, posteriormente, lecionou francês em um liceu na mesma cidade. In “Uma mão só não basta para escrever”, Editora 7 Letras, 2024. Tradução de Carlito Azevedo e Maria Eduarda Castro. Considerado uma das maiores vozes intelectuais do país. Ele fundou em 1966 a revista revolucionária Souffles, que renovou a literatura magrebina. Por sua oposição política ao regime durante os chamados “Anos de Chumbo”, passou mais de oito anos preso. Em 2009, foi agraciado com o prestigiado Prêmio Goncourt de Poesia na França. O Marrocos possui uma tradição poética riquíssima, moldada pela fusão de influências árabes, berberes (amazigh), africanas e francesas. Sua literatura transita de forma única entre o clássico, o místico (sufismo) e o vanguardista