Realidade

Eis-me aqui de novo em meu subúrbio
Esta casa
que mais uma vez trocarei por outra
O quarto onde já não me tranco para escrever
(não é essa a minha única contradição)
O que minha janela me oferece
um pedaço de rua
onde passam mais carros que pedestres
Um trecho de céu opaco
e tão baixo
que os pássaros nele roçam suas asas
Sobre minha mesa
as cartas se acumulam
Sob meu cotovelo
Ao lado
a máquina de lavar gira
faz desaparecer de minhas roupas
o cheiro da viagem
O telefone toca
Como um autômato
eu estendo a mão
e me rendo à realidade

Abdellatif Laâbi (Fez, Marrocos, 1942) é um poeta, jornalista, romancista, dramaturgo, tradutor e ativista político marroquino. Laâbi formou-se em Literatura Francesa pela Universidade de Rabat e, posteriormente, lecionou francês em um liceu na mesma cidade. In “Uma mão só não basta para escrever”, Editora 7 Letras, 2024. Tradução de Carlito Azevedo e Maria Eduarda Castro. Considerado uma das maiores vozes intelectuais do país. Ele fundou em 1966 a revista revolucionária Souffles, que renovou a literatura magrebina. Por sua oposição política ao regime durante os chamados “Anos de Chumbo”, passou mais de oito anos preso. Em 2009, foi agraciado com o prestigiado Prêmio Goncourt de Poesia na França. O Marrocos possui uma tradição poética riquíssima, moldada pela fusão de influências árabes, berberes (amazigh), africanas e francesas. Sua literatura transita de forma única entre o clássico, o místico (sufismo) e o vanguardista

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 19 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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