Política mais ou menos

Sai ou não sai?

— Feliz Natal, meu caro Ministro. E boas castanhas.
— Você acha que eu chegarei até lá?
— Não diga absurdo. O senhor está vendendo saúde.
— Saúde eu tenho, mas não sei se serei Ministro até a semana que vem.
— Vai demitir-se? Essa não.
— Você sabe que não tenho ambições, mas não sou homem para demitir-me de um posto de responsabilidade. E verbo que não conjugo. Claro que enquanto merecer a confiança do…
— Isso. Então não há problema.
— Há. O problema começa aí.
— Ele retirou a confiança que tinha no senhor?
— Como é que eu posso saber? Se ele mesmo não sabe.
— Também não sei. Deduzo. Ele me disse que vou continuar até o fim, então concluí que está dificílimo.
— Ele diz o contrário do que pensa?
— Absolutamente. Diz só a metade do que pensa. A outra metade, naturalmente, está imersa em névoa seca.
— Já sei. O futuro a Deus pertence.
— Ê. Mas o presente, que é bom, pertence aos sindicatos, à Frente Parlamentar Nacionalista, à UNE, às assessorias técnicas, às forças ocultas, ao acaso e a outros poderes constituídos e constituintes, até mesmo ao PSD. Ele próprio disse por outras palavras que não é o único a presidir, você não ouviu?
— Mas se o senhor é da confiança dele…
— Quer saber de uma coisa? Não vá botar no jornal, hein.
Se eu sou mesmo, estou frito.
— Não morei, Ministro.
— Ele me chama, bota a mão no meu ombro e diz, olhando para baixo e para o lado: “Tenho absoluta confiança em ti e quero que me faças um sacrifício: passa a cuia a Fulano.”
— A cuia?
— A pasta.
— E quem seria Fulano?
— Minha esperança é que são vários. Você vai me fazer um favor.
— Mande, Ministro.
— Espalhe outros nomes além dos já lembrados. Solte o enxame de moscas azuis. Com tanta gente competindo, ele acaba não podendo escolher ninguém.
— O senhor acha? Dizem que ele próprio tem mandado soprar nomes…
— É uma jogada que pode me servir. Os candidatos vão sendo churrasqueados, enquanto isso os titulares permanecem. O diabo é quando o espeto chega perto da gente.
— E ele tem uma fome danada. Quantos ministérios já papou!
— Ah, não me fale. E eu queria tanto passar um Natal tranquilo, um Ano Novo alegre…
— Ele não lhe fará uma crueldade dessas, Ministro.
— Quer maior crueldade do que festejar o Natal sob ameaça de não digerir sequer as castanhas, ir ao réveillon e ter um pensamento amargo à hora de levantar a taça? É como a gente sentir-se peru de Natal. Engordado para… Não! Minhas festas estão estragadas! Tudo estragado! Tanta reforma por fazer, e começar logo pela reforma do Ministério, que nem forma tinha nem pretendia ter!

Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987). In “Cadeira de balanço – Crônicas”, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1966

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 18 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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