Solombra

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,
a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus, sem tentação de volta.

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza:
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
já de horizontes libertada, mas sozinha.

Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.

Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

“Agora és livre, se ainda recordas”

Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1901 — Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1964). In “Solombra”, Editora Livros de Portugal. No ano de meu nascimento e da partida dessa incrível poetisa o livro “Solombra” venceu o 6º Prêmio Jabuti (realizado em 1964), sendo premiado na categoria “Poesia”. Este foi o último livro de poesia dela, publicado em 1963. A obra reúne 28 poemas marcados por temas como a morte, a solidão, a memória e a passagem do tempo

A um homem qualquer

Tu que vês a lua traçar o arco da tarde
e tens a certeza de que o sol prossegue seu conciso incêndio,
tu que já sentiste o vidro do mar,
sabes o gume do tempo, o rumor no pulso, o gosto do fel e do pão –
.                                       consentes prender teu grande cuidado
em cifras, jogos, adições inertes, nomenclaturas?
.                         Aceita! aceita tudo
como um fardo, talvez uma paga,
um resgate,
.                     todavia rebela-te
e iça as veias quando o vento vier
.                                                 que o resto é indigno de ti

José Paulo Moreira da Fonseca (Rio de Janeiro, 13 de junho de 1922 – Rio de Janeiro, 4 de dezembro de 2004) foi um escritor, poeta, ensaísta, teatrólogo, pintor e crítico de arte, e um dos mais importante nomes da poesia brasileira das gerações dos anos 40 e 50, tendo sido indicado algumas vezes para a Academia Brasileira de Letras. Foi o primeiro vencedor da categoria “Poesia” no Prêmio Jabuti, e levou o prêmio na edição inaugural de 1959 com o livro “Três livros”. Venceu também, em 1974 esse mesmo ´prêmio de poesia, com o livro “Luz e Sombra”. In “Antologia Poética”, Editora Leitura S. A.
Nota: A categoria “Poesia” foi criada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) já na primeira edição do Prêmio Jabuti, em 1959. O objetivo do Jabuti nessa categoria, é premiar autores de livros de poesia publicados no ano anterior ao da cerimônia. Até 1992, havia apenas um vencedor por categoria. Em 1993 e 1994, foram definidos até cinco vencedores em cada categoria. A partir de 1995, os três primeiros colocados passaram a ser considerados vencedores (as exceções foram de 2002 a 2005, quando o segundo e o terceiros colocados receberam o prêmio como “menção honrosa”). A partir de 2018, apenas o primeiro colocado voltou a ser considerado vencedor da categoria

22 anos do site José Aníbal

Nesse 18 de agosto o antigo site de José Aníbal faz aniversário e, com satisfação, lembro esta data. Este site está no ar desde os seus tempos de vereador pela cidade de São Paulo e o seu objetivo continua sendo o de informar, debater e divulgar suas e atividades como político.

Na sua trajetória ele passou pela sua votação recorde para vereador da cidade de São Paulo em 2004, onde foi eleito com 165.880 votos. Seguiu com sua eleição para deputado federal em 2006 e em 2010, e depois continuou com sua escolha para secretário estadual de energia do Estado de São Paulo em 2011 e, em 2014, quando foi eleito primeiro suplente à senador na chapa encabeçada por José Serra.

Em 2016 assumiu pela primeira vez o mandato no Senado Federal com a ida de José Serra para o Ministério das Relações Exteriores, e ficou no cargo até fevereiro de 2017. Voltou a assumir temporariamente a vaga de Serra no Senado Federal em agosto de 2021, após o titular se afastar por doença e pedir licença por 4 meses.

Fica então essa memória e a internet agradece!

Acesse: https://www.joseanibal.com.br/

Namoro de bicicleta

Namoro de bicicleta
Ou então jogando peteca
No meio dessa fofoca
Pulando que nem pipoca
Vou fundo, no fundo
No qual, no fundo eu me afundo
Dizendo: Eu que te entendo
Em cada segundo de cada segundo
Depois eu dou um pulo de pulga
Dou, dou um pulo de piolho
Em cima da coisa mais fina
Que é você que eu escolho
E depois de pôr o amor no amor
E beijar o olho do seu olho
Ponho nós dois como feijão no arroz de molho
Ah-ah-ah, de olho no molho

Jorge Mautner (Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 1941) / Nelson Jacobina (Rio de Janeiro, 1953 — Rio de Janeiro, 31 de maio de 2012). Canção lançada no álbum “Bomba de estrelas” em 1981. A letra traz o estilo lúdico e poético característico do autor, misturando imagens cotidianas com lirismo

100 filmes imortais: Masp (24 a 31 de julho de 1981)

Ciclo II, com colaborações da Cinemateca do MAM-Rio/ CIC/ Polifilmes/ Cidef

Frente do folheto, já amarelado pelo tempo…

“A editora italiana Mondadori encomendou a 19 críticos internacionais de cinema a elaboração de uma lista atualizada dos melhores filmes de todos os tempos. Baseado nesta lista classificatória de 100 títulos, o Masp apresenta um novo ciclo dedicado aos 100 filmes imortais.”

Verso do folheto, nunca me esquecerei desses dias…

Dentre os muitos filmes destaco: “O anjo exterminador” (1962) de Luis Buñuel; “Nosferatu” (1922) de F. W. Murnau; “Deus e o diabo na terra do sol” (1964) de Glauber Rocha; “No tempo das diligências” (1939) de John Ford; e “Hiroshima meu amor” (1959) de Alain Resnais.

Il Guarany

A ópera “Il Guarany” (O Guarani), de Antônio Carlos Gomes (Campinas, São Paulo, 11 de julho de 1836 – Belém, Pará, 16 de setembro de 1896), foi composta originalmente em italiano com libreto de Antonio Scalvini (1835-1881) e Carlo D’Ormeville (1840-1924), não possuindo uma “letra de canção” popular no sentido tradicional. Sua parte mais famosa é a “Protofonia” (a abertura instrumental), frequentemente associada a versos patrióticos adaptados posteriormente, como o canto escolar “Do sol aos raios fúlgidos…”. Estreada em Milão em 1870, baseia-se na obra “O Guarani”, romance homônimo de José de Alencar (Fortaleza, Ceará, 1.º de maio de 1829 — Rio de Janeiro, 12 de dezembro de 1877).
No dizer de Leonardo Marques, nascido em 1979 e formado em letras em um longo artigo publicado no site “Notas Musicais” e intitulado “Na tempestade “Guarani”, trovejou e não choveu”, ele afirma que uma das produções dela, ocorrida no Theatro Municipal de São Paulo de 12 e 14 de maio 2023, com direção musical de Roberto Minczuk e direção cênica de Cibele Forjaz (com base em concepção de Ailton Krenak), essa ópera “paira em alto grau no imaginário brasileiro: guarda certa mística, talvez pela enorme popularidade dos acordes iniciais da sua abertura, conhecida no país inteiro por meio do programa radiofônico A Voz do Brasil; talvez pela dimensão alcançada em sua estreia mundial (1870) no mítico Teatro alla Scala, de Milão, onde obteve grande sucesso. Por quaisquer que sejam os motivos, Il Guarany é um grande marco para a música brasileira.” E acrescenta que “A literatura teve um papel fundamental na elaboração e na circulação de uma mítica atrelada às origens do Brasil, nas décadas subsequentes à sua Independência, assim como a ópera italiana cooperou no esforço de unidade nacional daquele país. No Brasil, as diretrizes formuladas pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro foram seguidas com afinco pedagógico por José de Alencar na elaboração do romance indigenista O Guarani (1857).
A história se passa num rincão do Rio de Janeiro no princípio do século XVII. Seus protagonistas são Peri, um indígena do povo Goitacás (que, a propósito, não pertencia à etnia Guarani), e Cecília (ou Ceci), mocinha cândida filha de um dos próceres da nação, Dom Antônio de Mariz, fidalgo português que participara da fundação do Rio de Janeiro. Peri salva Ceci dos Aimorés e se apaixona por ela tal e qual um cavaleiro medieval. A tópica e os traços dos personagens remetem a esse modelo anterior de abnegação e entrega, que culmina, no livro de Alencar, na cristianização de Peri e na fuga de ambos, no interior de um frágil bote em meio a ondas bravias – a mítica da fundação da nacionalidade segundo Alencar constrói-se aí, entre esse indígena europeizado e a brasileirinha filha de europeus, tendo como lume o Deus do cristianismo.
Outro par romântico da história, que também coloca em movimento o ideário de nação defendido por Alencar, é a mestiça Isabel, filha bastarda de Dom Antônio, e Álvaro de Sá, antigo apaixonado de Ceci, cavaleiro e capataz do fidalgo – casal este que sucumbe tragicamente também segundo a tópica dos romances de cavalaria: ele morre em combate, o que a leva ao suicídio. Na economia da obra, esta jovem descrita como amorenada e sensual, filha de uma indígena, também não poderia restar para compor o ideário de nação almejado. Pregava-se, então, o completo apagamento do elemento negro, e mesmo o mestiço era repudiado: naquela época, vigorava um pseudo-cientificismo segundo o qual o branco ocupava o topo da escala evolutiva; o preto, a sua base; e a mestiçagem levava invariavelmente à degenerescência. Por isso Peri é um indígena com tantos traços físicos e psicológicos europeus.”
E conclui dizendo “Sucesso europeu, essa ópera de Carlos Gomes participa de uma tradição operística vicejante, que desenha os caracteres de forma tipificada – Ceci é a mocinha frágil, e Peri, o seu herói –, impregnando-lhes da substância mais fluida e profunda que existe, a música (e de sua contraparte, o canto). Nós, o público, somos levados de roldão por essa tempestade de música de moldes italianos (embora composta por um brasileiro) que dilui a personagem de Peri de forma ainda mais contundente do que fizera José de Alencar.”

Leonardo Marques é pós-graduado em língua italiana, participou de cursos particulares sobre ópera e foi colaborador do site “movimento.com” entre 2004 e 2021