Dez chamamentos ao amigo
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
Hilda Hilst (Jaú, São Paulo, 21 de abril de 1930 — Campinas, São Paulo, 4 de fevereiro de 2004). In “Júbilo, memória, noviciado da paixão”, 1974
Signos em azul e vermelho
Carlos Gardel
Tangos, bandoneões, uma guitarra que geme
Num ritmo de amor desesperado
Um cabaré que fecha suas portas
Uma rua de amor e de pecado
Um guarda que vigia numa esquina
Um casal que anda à procura de um hotel
Um resto de melodia um assobio
Uma saudade mortal, Carlos Gardel
Carlos Gardel
Buenos Aires cantava no teu canto
Buenos Aires chorava no teu pranto
E vibrava em tua voz, Carlos Gardel
O teu canto era a batuta de um maestro
Que fazia pulsar os corações
Na armagura das tuas melodias
Carlos Gardel
Se cantavas a tragédia das perdidas
Compreendendo suas vidas
Perdoava seu papel
Por isso enquanto houver um tango triste
Um otário, um cabaré, uma guitarra
Tu viverás também, Carlos Gardel
Carlos Gardel
Buenos Aires cantava no teu canto
Buenos Aires chorava no teu pranto
E vibrava em tua voz, Carlos Gardel
O teu canto era a batuta de um maestro
Que fazia pulsar os corações
Na armagura das tuas melodias
Carlos Gardel
Se cantavas a tragédia das perdidas
Compreendendo suas vidas
Perdoava seu papel
Por isso enquanto houver um tango triste
Um otário, um cabaré, uma guitarra
Tu viverás também, Carlos Gardel
David Nasser (Jaú, São Paulo, 1 de janeiro de 1917 – Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 1980) / Herivelto Martins (Distrito de Rodeio, hoje Engenheiro Paulo de Frontin, Rio de Janeiro, 30 de janeiro de 1912 — Rio de Janeiro, 17 de setembro de 1992), interpretado por Nelson Gonçalves (Sant’Ana do Livramento, Rio Grande do Sul, 21 de junho de 1919 – Rio de Janeiro, 18 de abril de 1998)
Despertar num átimo
Antes do nome
Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”,
o “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.
Adélia Prado (Divinópolis, Minas Gerais, 13 de dezembro de 1935). Na semana em que essa poetisa mineira faz 89 Anos
Boccard
Decifrando o escrito: “Homem com horizontes”.
Razão de ser
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
Paulo Leminski (Curitiba, Paraná, 24 de agosto de 1944 — 7 de junho de 1989)
Tupinambá
El día que me quieras
Acaricia mi ensueño
El suave murmullo
De tu suspirar
Como ríe la vida
Si tus ojos negros
Me quieren mirar
Y si es mío el amparo
De tu risa leve
Que es como un cantar
Ella aquieta mi herida
Todo, todo se olvida
El día que me quieras
La rosa que engalana
Se vestirá de fiesta
Con su mejor color
Y al viento las campanas
Dirán que ya eres mía
Y locas las fontanas
Se contarán su amor
La noche que me quieras
Desde el azul del cielo
Las estrellas celosas
Nos mirarán pasar
Y un rayo misterioso
Hará nido en tu pelo
Luciernagas curiosas que verán
Que eres mi consuelo
El día que me quieras
No habrá más que armonía
Será clara la aurora
Y alegre el manantial
Traerá quieta la brisa
Rumor de melodía
Y nos darán las fuentes
Su canto de cristal
El día que me quieras
Endulzará sus cuerdas
El pájaro cantor
Florecerá la vida
No existirá el dolor
La noche que me quieras
Carlos Gardel (Tacuarembó, Uruguai, ou Toulouse, França, 11 de dezembro de 1890 — Medellín, Colômbia, 24 de junho de 1935) / Alfredo Le Pera (São Paulo, 7 de junho de 1900 — Medellín, Colômbia, 24 de junho de 1935). O avião no qual viajavam Carlos Gardel e seu parceiro musical, Alfredo Le Pera, se choca com outra aeronave enquanto decolava do Aeroporto Las Playas, na cidade de Medellín, Colômbia e os dois falecem no mesmo dia