1
Botei um vestido de álacres
no poema
com adjetivos vermelhos
para ficar venenoso
(mas o poema estava nervoso).
uma piteira dourada
de nébulas enigmáticas:
esqueci que minhas tranças
quando balançam fazem ruído
e minha suposta cara é redonda,
açucarada,
com um laço de chuvas.
Se eu pingo,
o mau jeito é um resfriado
e esse poema
não serve para fotografia:
tartamudeia tanto
que a pose não fixa.
2
Fechou o cenário:
essa alma não me obedece:
chove
(o poema está mal-assombrado).
O verso escorre
no meu portrait a Lautrec,
a obra-prima negra da ventura
moderna.
Botei um coador de forma
e as sobras das lantejoulas
me espiam
pintalgadas e chuvosas:
entre amarrotado e verdadeiro
o poema rosnou, deu de ombros, fugiu.
Elisabeth Veiga (Rio de Janeiro, 30 de julho de 1941 – Rio de Janeiro, 2 de agosto de 2018). In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999