Na praia do Canto
de repente me lembrei que já estou
jantando no canto XIX
e Aquiles ainda não lutou.
Na praia do Canto
ouço o relincho de Xanto e de Balio
que um deus me enviou
para eu sentir no corpo da linguagem
as lágrimas de Aquiles, turvo rio
que o degelo de março transbordou.
Na praia do Canto
uma voz veio vindo veio vindo e me falou:
— Fique quieto no seu canto. Não ame:
O coitado do Aquiles nunca amou.
Então assobiei: e um potro alado
à ilha dos amores me levou.
Aí, meio confuso, mas solene,
saboreei la belle Hélene
e Aquiles, já no inferno. me invejou.
Búzios, março de 1998
Gilberto Mendonça Teles (Bela Vista de Goiás, Goiás, 30 de junho de 1931 – Rio de Janeiro, 4 de dezembro de 2024). É considerado o escritor goiano mais famoso na Europa, tendo os seus livros escrito em 12 línguas. In “Poesia sempre – Poesia brasileira contemporânea – Revista semestral de poesia”, Rio de Janeiro: Assessoria editorial e gráfica – In-Fólio Produção Ltda., ano 7, número 11, outubro de 1999