Fazenda

Vejo o Retiro: suspiro
            no vale fundo.
Retiro ficava longe
            do oceanomundo.
Ninguém sabia da Rússia
            com sua foice.
A morte escolhia a forma
            breve de um coice.
Mulher, abundavam negras
            socando milho.
Rês morta, urubus rasantes
            logo em concílio.
O amor das éguas rinchava
            no azul do pasto.
E criação e gente, em liga,
            tudo era casto.

Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987). In “Lição de coisas”. 1962.

Um artista de Alagoas: Carlos João dos Santos

“Meu nome é Carlos João dos Santos. Nasci em Arapiraca – AL. No ano de 1986 fui criado no povoado Taboca, bairro da cidade de Feira Grande, de família humilde desde criança, aproximadamente no ano de 1992, comecei a observar meu avô fazendo telhas e panelas de barro, e foi despertada a curiosidade e comecei com o barro a fazer bonequinhos, carrinhos, panelinha para brincar, e isso era uma forma de ter os brinquedos de brincar, como na época era uma necessidade, não tinha condições de comprar. Com uns oito anos comecei fazer meus desenhos no chão em folhas de papel em palma – planta típica do Nordeste – , e cada vez que eu fazia mais gostava e fui me aperfeiçoando e criando cada vez mais na adolescência na escola, sempre meus amigos me procuravam para fazer trabalhos de artes, como alguns cartazes, desenhos e maquetes. Com 22 anos trabalhei em uma empresa de construção civil, e sempre na hora do almoço aproveitava o momento e fazia esculturas ou casinha de tijolos com materiais que eram descartados pela a empresa, casei com 24 anos e comecei a residir em Lagoa da Canoa – AL, e desde então venho fazendo minhas artes cada vez mais, e sempre que posso participo de feiras e exposições.”

Carlos João dos Santos

Contatos:
www.instagram.com/carlosjoaodossantos4
WhatsApp: (82) 9 9950-4303

Inclinado nas tardes

Inclinado nas tardes lanço as minhas tristes redes
aos teus olhos oceânicos.

Ali se estira e arde na mais alta fogueira
a minha solidão que esbraceja como um náufrago.

Faço rubros sinais sobre os teus olhos ausentes
que ondeiam como o mar à beira dum farol.

Somente guardas trevas, fêmea distante e minha,
do seu olhar emerge às vezes o litoral do espanto.

Inclinado nas tardes deito as minhas tristes redes
a esse mar que sacode os teus olhos oceânicos.

Os pássaros noturnos debicam as primeiras estrelas
que cintilam como a minha alma quando te amo.

Galopa a noite na sua égua sombria
derramando espigas azuis por sobre o campo.

Pablo Neruda (Parral, Chile, 12 de julho de 1904 — Santiago, Chile, 23 de setembro de 1973)

III – Ao Entardecer

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos …

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros…

Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa (Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 — Lisboa, Portugal, 30 de novembro de 1935)