
Noza é o nome artístico de Inocêncio da Costa Nick e ele foi um gravador, escultor e santeiro nascido em 1897 em Taquaritinga do Norte, Pernambuco, e falecido em 1984 em São Paulo, capital.
É Mestre Noza quem fala:
“se você me perguntar como foi que eu aprendi essas artes, eu digo assim: foi uma velha que me ensinou, a ‘precisão’. Porque quem não quer roubar e não quer se empregar, inventa muita coisa”.
Mestre Noza – Inocêncio da Costa Níquel, o mais importante escultor, xilógrafo e entalhador de Juazeiro do Norte, morto em 1984, com quase 90 anos de idade, começou como aprendiz, na oficina do mestre Vicente Dias, orientado pelo Padre Cícero, após ter roubado, para casar, uma moça da vizinha cidade de Jardim:
“… eu era muito pobre e ela de uma família meio rica, e eu tinha vergonha dela… porque eu tinha muita coragem naquele tempo, roubar uma moça de importância era muita coragem, né? Tinha duas resezinhas, vendi por cento e cinquenta mil réis, e fiquei a rondar… não dava para a despesa daquela mulher. Entrei a pensar o que era de fazer e achei que nessa arte dava, porque eu não tinha oficina e não tinha ferro. Comprei uma faquinha cega e entrei na arte. O mestre que me quis era doido, ele era doido demais. Passei lá dezenove dias, deixei a mulher em casa sem nada, quando voltei ela perguntou: ‘cadê?’. Eu digo: ‘o homem não me deu nada’… não gosto de emprego, gosto de trabalhar por minha conta… porque a gente quando vai entrar num serviço assim, é mesmo que na escola, que vai aprender qualquer coisa, é como cego, ninguém sabe de nada…”
Assim nasceu um dos mais originais santeiros, que se tornaria conhecido por fazer imagens do Padre Cícero para todo o país. Em 1965, Mestre Noza grava a “Via Sacra”, cujas quatorze peças originais são editadas em Paris em um álbum que leva o artista ao mercado internacional. Seu trabalho sobre “Os Doze Apóstolos” é publicado pelo Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará, em 1976. Sua oficina, em Juazeiro do Norte, torna-se ponto de encontro de artistas, poetas de cordel, gente interessada, curiosos, compradores daqui e de fora, sobretudo franceses. Esses últimos tiveram uma influência decisiva na carreira do mestre, ao aconselhá-lo a deixar de lixar e pintar suas imagens:
“— os primeiros santos que o senhor fez, no começo do seu trabalho, eram pintados ou eram assim?
— não, eram de tinta, até 1960, tinta de santo, de fazer santo.
— Foram os franceses, viu, aquele povo foi muito bom comigo.
— por que o senhor deixou de pintar?
— porque os franceses pediram a mim, que eu não lixasse também, porque eles achavam que tirava a arte.
— e o senhor acha mais bonito pintado ou…
— não, sem a tinta, sem a tinta. A tinta mata o gosto daquela arte”
Pouco antes de sua morte, em depoimento prestado ao CERES, Mestre Noza relembrou histórias de sua vida, episódios de guerra e cangaço, encontros com Lampião, a importância do Padre Cícero em seu trabalho. Vivia modestamente em Juazeiro do Norte, como sempre vivera, saindo diariamente ao cair da noite para “caminhar pelos matos”, até altas horas.
Embora poucos tenham uma trajetória tão rica quanto a de Mestre Noza, outros depoimentos revelam também que, com muita frequência, os caminhos do artista são variados e imprevisíveis, feitos de acaso, oportunidades, golpes de sorte, sucessos, fracassos e esquecimento. Como acontece, aliás, em todos os meios, em todas as artes.
Sylvia Porto Alegre. In “Mãos de mestre: Itinerários da arte e da tradição”. Fotografias de Maurício Albano e prefácio de Maria Isaura Pereira de Queiroz. São Paulo: Editora Maltese, 1994. Ela é antropóloga, doutora pela USP, com tese voltada para o artesanato cearense e como que mapeou as manifestações artísticas do interior desse estado. E a abrangência e a profundidade com que estuda estas questões dão a elas um interesse globalizante, universal. O ponto de vista que ela adota é o de compreender as culturas populares a partir da ruptura com uma visão distorcida e folclorizante. Ela dá voz e vez aos produtores populares. São eles que discutem o ofício, sua inserção no mercado,as implicações das manifestações culturais no contexto social. Organiza o material, funciona como catalisador , a partir de uma forte e consequente articulação teórica e rege esta polifonia de santeiros, artesãos do barro, xilógrafos, de todos aqueles que atuam neste campo fronteiriço entre elaboração estética e o pragmatismo funcional. Esta pesquisa acende oportunos focos de luz sobre questões pouco discutidas. Por fim, ela busca dar uma forma poética a este texto que é uma valiosa contribuição à discussão sobre cultura, mais que oportuna num instante em que os segmentos populares se organizam e ganham força nos movimentos sociais.
E este livro mostra um pouco da arte de Nino através de fotografias tiradas dele e de suas esculturas em madeira:



João Cosmo Felix, conhecido como Nino, foi um renomado escultor brasileiro nascido em 1920 em Juazeiro do Norte, Ceará, e falecido em 2002 na mesma cidade.