Em memória de W.B. Yeats († Jan. 1939)

I

Morreu no rigor do inverno:
Os ribeiros estavam gelados, os aeroportos quase desertos,
A neve desfigurava as estátuas públicas;
O mercúrio afogava-se na boca do dia agonizante.
Todos os instrumentos que possuímos
Concordam que o dia da sua morte foi escuro e frio.

Longe da sua doença,
Os lobos corriam nas florestas verdejantes,
Cais sedutores não tentavam os rios campestres;
A voz das carpideiras
Manteve a morte do poeta afastada dos seus poemas.

Mas para ele foi a sua última tarde,
Uma tarde de enfermeiras e boatos;
As províncias do seu corpo revoltaram-se,
As praças do seu espírito estavam desertas.
O silêncio invadiu os subúrbios,
A corrente dos seus sentidos estancou; ele tornou-se os seus admiradores.

Agora está espalhado por inúmeras cidades,
Inteiramente oferecido a afectos estranhos,
Para encontrar a sua felicidade noutro bosque
E ser castigado por um código estrangeiro.
As palavras de um morto
Modificam-se nas entranhas dos vivos.

Mas na importância e no barulho de amanhã
Quando, como animais, os corretores berrarem no recinto da Bolsa
E os pobres sofrerem como estão acostumados
E na cela de si, cada um se convencer que é livre,
Uns poucos milhares pensarão neste dia,
Como quem pensa num dia em que fez algo pouco habitual.
Todos os instrumentos que possuímos
Concordam que o dia da sua morte foi escuro e frio.

W.H. Auden (York, Reino Unido, 21 de fevereiro de 1907 — Viena, Áustria, 29 de setembro de 1973). In “Massacre dos inocentes (Uma antologia)”. Seleção, tradução e notas de José Alberto Oliveira. Lisboa: Assírio & Alvim, 1994

Nota: William Butler Yeats , muitas vezes apenas designado por W.B. Yeats (Sandymount, Dublin, Irlanda, 13 de junho de 1865 — Roquebrune-Cap-Martin, França, 28 de janeiro de 1939)

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 18 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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