Mulheres de amigos destroem a amizade.
No principio ocupam timidamente uma parte do amigo,
aninham-se nele,
aguardam,
observam,
e aparentemente participam do círculo.
Esse pedaço do amigo não nos pertencia –
nada notamos.
Mas logo a coisa muda:
Elas tomam um aposento após o outro,
penetram mais fundo,
logo têm o amigo inteiro.
Ele está mudado: é como se tivesse vergonha de sua amizade.
Assim como antes envergonhava-se do amor diante de nós,
agora envergonha-se da amizade diante do amor.
Não nos pertence mais.
Ela não está entre nós – já o levou.
Ele não é mais nosso amigo:
é o seu marido.
Um leve melindre permanece.
Tristemente o seguimos com os olhos.
A da cama tem sempre razão.
Kurt Tucholsky (Berlim, Alemanha, 9 de janeiro de 1890 – Hindas, perto de Gotemburgo, Suécia, 21 de dezembro de 1935)1890-1935), foi um jornalista, satirista e escritor alemão, poeta e autor de músicas de cabaré. Tradução de Paulo Cesar Souza. Publicado em um suplemento do jornal Folha de S. Paulo em 19 de fevereiro de 1988