Frade
Deo gratias! Demos caçada!
Pera sempre contra, sus!!
Um fendente! Ora sus!:
Esta é a primeira levada.
Alto! levantai a espada! –
– Metei o diabo na cruz
como o eu agora pus…
– Saí co’a espada rasgada
e que fique anteparada.
Talho largo, e um revés,
e logo colher os pés,
que todo o al nom é nada.
Quando o recolher se tarda
o ferir nom é prudente.
Ora sus! Mui largamente,
cortai na segunda guarda!
– Guarde-me Deus d’espingarda,
mais de homem denodado!
Aqui estou tão bem guardado
como a palha n’albarda.
Saio com meia espada…
Houlá! Guardai as queixadas!
Gil Vicente (Guimarães, Portugal, 1465 – Évora, Portugal, 1536, possivelmente). In “Auto da barca do inferno (Clássicos para o vestibular)”, teatro português. Apresentação e notas de Ivan Teixeira. São Paulo: Ateliê Editorial, 1996
Para tornar mais claro esse texto faço uso abaixo do trabalho “Auto da barca do inferno – Gil Vicente” feito por um grupo de cinco estudantes do Colégio Presbiteriano Mackenzie São Paulo (Higienópolis), com a participação de meu filho João Alexandre da Silva Matosinho:
Resumo da obra
Por meio da presença de dois barqueiros, o Anjo e o Diabo, eles recebem as almas dos passageiros que passam para o outro mundo. A cena passa-se num porto e portanto, um dos barcos vai em direção ao céu, e outro para o inferno. A maioria dos personagens vão para a barca do inferno. Durante suas vidas não seguiram o caminho de Deus, foram trapaceiros, avarentos, interesseiros e cometeram diversos pecados. Por outro lado, quem seguia os preceitos de Deus e viveu de maneira simples vai para a barca de Deus. São eles: Joane, o parvo, e os quatro cavaleiros. O Auto da barca do inferno é um grande clássico da literatura portuguesa. Ele possui diversas sátiras envolvendo a moralidade. Pelo destino das almas de alguns personagens, a obra satiriza o juízo final do catolicismo, além da sociedade portuguesa do século XVI. A alegoria do juízo final é um recurso utilizado pelo dramaturgo através de seus personagens (diabo e anjo). Além disso, cada personagem possui uma simbologia associada à falsidade, ambição, corrupção, avareza, mentira, hipocrisia etc.
Análise das personagens – Personagens e seus pecados
Diabo: capitão da barca do Inferno.
Anjo: capitão da barca do Céu.
Fidalgo: tirano e representante da nobreza. Teve uma vida voltada para o luxo e vai para o inferno.
Onzeneiro: homem ganancioso, agiota e usurário. Por ter sido um grande avarento na vida ele vai para o inferno.
Joane, o parvo: personagem inocente que teve uma vida simples. Portanto, ele vai para o céu.
Sapateiro: homem trabalhador, mas que roubou e enganou seus clientes. Assim, ele vai para o inferno.
Frade (Destacado no trecho acima): representante da Igreja, que vai para o inferno. Isso porque ele tinha uma amante, Florença, e não seguiu os princípios do catolicismo.
Brígida Vaz: alcoviteira condenada por bruxaria e prostituição que vai para o inferno.
Judeu: personagem que foi recusado pelo Diabo e pelo Anjo por não ser adepto ao Cristianismo. Por fim, ele vai para o inferno.
Corregedor e Procurador: representantes da lei. Ambos vão para o inferno, pois foram acusados de serem manipuladores e utilizarem das leis e da justiça para o bem e interesses pessoais.
Cavaleiros: grupo de quatro homens que lutaram para disseminar o cristianismo em vida e portanto, são absolvidos dos pecados que cometeram e vão para o céu.