Riachão estava cantando
na cidade do Assu
quando apareceu um negro
da espécie de urubu
tinha a camisa de sola
e as calças de couro cru
Beiços grossos e virados
como a sola do chinelo
um olho muito encarnado
e o outro muito amarelo
esse chamou Riachão
para cantar um martelo
Riachão disse: eu não canto
com negro desconhecido
porque pode ser escravo
e andar aqui fugido
isso é da cauda a nambu
e entrada a negro enxerido
O negro – Sou livre como vento
a minha linhagem é nobre
sou um dos mais ilustrados
que o sol nesse mundo cobre
nasci dentro da grandeza
não sai de raça pobre
Riachão – Você nega porque quer
está conhecido demais
você anda aqui fugido
me diga que tempo faz?
se você não for cativo
obras desmentes sinais
O negro – Seja livre ou seja escravo
eu quero cantar martelo
afine sua viola
vamos entrar em duelo
só com a minha presença
O senhor está amarelo
Riachão – Vejo um vulto tão pequeno
que nem posso enxergar
julgo que nem é preciso
nem a viola afinar
pela ramagem da árvore
ver-se o fruto qu’ela dá
O negro – Riachão, isso é frase
de homem muito atrasado
porque são vistos fenômenos
que na terra tem se dado
uma cobra tão pequena
mata um boi agigantado
Riachão – Meu Riacho pela sêca
dá cheias descomunais
na correnteza das águas
descem grandes animais
Jiboias, sucurujubas
e monstruosos “jaguais”
O negro – O jaguar rende-me culto
a serpente a meus pés morre
no que chegar minha ira
só um poder o soccorre
digo ao rio: pare aí:
a água para e não corre
Riachão – Você não é Josué
que mandou o sol parar
e esse passou três dias
para guerra se acabar
nem Moisés com a vara
fez o mar também secar
O negro – Faça tudo o que quiser
minha força é sem limite
os feitos por mim obrados
não vejo homem que os cite
eu determino uma cousa
não há força que evite
Riachão – Salomão também fazia
o que queria fazer
por meio de mágica e química
quis novamente nascer
mas em vez do nascimento
conseguiu ele morrer
Leandro Gomes de Barros (Pombal, Paraíba, 19 de novembro de 1865 — Recife, Pernambuco, 4 de março de 1918). Foi um dos maiores poetas populares do Brasil, considerado o “Rei do Cordel”, que narrou o sertão, a seca, o cangaço, a fé e os costumes nordestinos em cerca de mil folhetos, deixando um legado fundamental para a literatura de cordel, com obras que exploram o drama, a crítica social e a religiosidade
Cordel recomendado via mensagem no Instagram pela fotógrafo de rua, retratos e foto-documentário, escritor, dramaturgo e professor de história pernambucano Tiago da Silva Palma (@tiago_historiarte) um dia após nossa conversa na Bibli-Aspa.