Como morreu quem nunca bem

Como morreu quem nunca bem
houve da rem que mais amou,
e que[m] viu quanto receou
dela, e foi morto por em
          ai, mia senhor, assi moir’eu!

Como morreu quem foi amar
quem lhe nunca quis bem fazer,
e de que lhe fez Deus veer
de que foi morto com pesar:
          ai, mia senhor, assi moir’eu!

Com’home que ensandeceu,
senhor, com gram pesar que viu
e nom foi ledo nem dormiu
depois, mia senhor, e morreu:

         ai, mia senhor, assi moir’eu!

Como morreu quem amou tal
dona que lhe nunca fez bem,
e quen’a viu levar a quem
a nom valia, nen’a val:

         ai, mia senhor, assi moir’eu!

Paio Soares de Taveirós (Reino da Galiza, província portuguesa do Minho, Portugal, 1200 – Morte, Desconhecida). In “Poesia medieval – Literatura portuguesa”

Por que sou forte

A Ezequiel Freire

Dirás que é falso. Não. É certo. Desço
Ao fundo d’alma toda vez que hesito…
Cada vez que uma lágrima ou que um grito
Trai-me a angústia – ao sentir que desfaleço…

E toda assombro, toda amor, confesso,
O limiar desse país bendito
Cruzo: – aguardam-me as festas do infinito!
O horror da vida, deslumbrada, esqueço!

É que há dentro vales, céus, alturas,
Que o olhar do mundo não macula, a terna
Lua, flores, queridas criaturas,

E soa em cada moita, em cada gruta,
A sinfonia da paixão eterna!…
– E eis-me de novo forte para a luta.

Narcisa Amália (São João da Barra, Rio de Janeiro, 3 de abril de 1852 — Rio de Janeiro, 24 de julho de 1924). Poeta, escritora, tradutora e crítica literária, foi reconhecida como a primeira mulher a trabalhar como jornalista profissional no Brasil. Escreveu na revista “A Leitura” (1894 – 1896) muitos artigos sobre o feminismo e a república. Sua obra poética também é voltada ao combate à opressão da mulher na sociedade e o regime escravista

Cesar Lima, que encontrou no naïf o poder de expressar sua cultura local, história e costumes

Cesar Lima é um artista plástico autodidata, natural de Cariacica-ES.

“Cesar não pinta necessariamente o que vê. Afinal, não se trata de um impressionista. Ele pinta o que vive, o que sente, o que transpira. Reivindica culturas sabidamente esteriotipadas e historicamente diminuídas. E o faz com a alegria dos circos e das festas de terreiro que, pelas cores vivas de sua paleta, transmite a beleza singular dessas manifestações.”

Hugo Fonseca, in “A beleza e o misticismo do popular”, folheto de sua exposição de Ouro Preto-MG, 19 de janeiro de 2023

Contatos:
www.facebook.com/herbertcesar.limafranscoviat.9
www.instagram.com/cesarfranscoviat19
WhatsApp: (27) 9 9201-5666

Os tambores de Minas

Era um, era dois, era cem
Mil tambores e as vozes do além
Morro velho, senzala, casa cheia
Repinica, rebate, revolteia

E trovão no céu é candeia
Era bumbo, era surdo e era caixa
Meia-volta e mais volta e meia
Pocotó, trem de ferro e uma luz
Procissão, chão de flores e Jesus

Bate forte até sangrar a mão
E batendo pelos que se foram
Ou batendo pelos que voltaram
Os tambores de Minas soarão
Seus tambores nunca se calaram

Era couro batendo e era lata (era couro batendo e era lata)
Era um sino com a nota exata (era um sino com a nota exata)
Pé no chão e as cadeiras da mulata (pé no chão e as cadeiras da mulata)
E o futuro nas mãos do menino
Batucando por fé e destino

Bate roupa em riacho a lavadeira (bate roupa em riacho a lavadeira)
Ritmando de qualquer maneira (ritmando de qualquer maneira)
E por fim, o tambor da musculatura (e por fim o tambor da musculatura)
O tum-tum ancestral do coração (o tum-tum ancestral do coração)
Quando chega a febre ninguém segura

Bate forte até sangrar a mão
Os tambores de Minas soarão
Seus tambores nunca se calaram
Os tambores de Minas soarão
Seus tambores nunca se calaram, êh

Os tambores de Minas soarão
Seus tambores nunca se calaram
Os tambores de Minas soarão

Seus tambores nunca se calaram
Seus tambores nunca se calaram

Márcio Borges (Belo Horizonte, 31 de janeiro de 1946) / Milton Nascimento (Rio de Janeiro, 26 de outubro de 1942). Canção de 1997

Para ser grande

Detalhe da fotografia que bati na época em que estive lá no Mosteiro dos Jerónimos de Lisboa com meu pai Edmundo onde se vê grafado no mármore o lindo e positivo poema desse gênio português…

Para ser grande, se inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa (Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 — Lisboa, Portugal, 30 de novembro de 1935). Escrito em placa de mármore no Mosteiro dos Jerónimos de Lisboa, obra-prima da arquitetura portuguesa, 14.2.1933