Margem

os olhos no vazio
e o eco só ressoa
o murmúrio do rio
sondaia solta um pio
e a sombra se amontoa
o peito sente frio
o braço rema à toa
a escuridão do rio

“cê vai, ocê fica, você não volta mais” (*)
o mundo por um fio
que a água desenhou
e o corpo conduziu
até que a mão deixou
a vida pelo rio

(*) Citação não literal de trecho do conto “A terceira margem do rio”, de João Guimarães Rosa.

Beto Furquim (São Paulo, 21 de agosto de 1964). In álbum “Muito prazer”, lançado como CD em 2008 com embalagem e encarte de papel assinados pelos artistas Alex Červený (capa e ilustrações) e Vanderlei Lopes (design)

Folia de rei

Ai, andar andei
Ai, como eu andei
E aprendi a nova lei
Alegria em nome da rainha
E folia em nome de rei
Alegria em nome da rainha
E folia em nome de rei

Ai, no mar marujei
Ai, eu naveguei
E aprendi a nova lei
Se é de terra que fique na areia
O mar bravo só respeita rei
Se é de terra que fique na areia
O mar bravo só respeita rei

Ai, voar voei
Ai, como eu voei
E aprendi a nova lei
Alegria em nome das estrelas
E folia em nome de rei
Alegria em nome das estrelas
E folia em nome de rei

Ai, eu partirei
Ai, eu voltarei
Vou confirmar a nova lei
Alegria em nome de Cristo
Porque Cristo foi o Rei dos reis
Alegria em nome de Cristo
Porque Cristo foi o Rei dos reis

Alegria em nome de Cristo
Porque Cristo foi o Rei dos reis
Alegria em nome de Cristo
Porque Cristo é o Rei dos reis

Arnaud Rodrigues (Serra Talhada, Pernambuco, 6 de dezembro de 1942 — Lajeado, Tocantins, 16 de fevereiro de 2010) / Chico Anísio (Maranguape, Ceará, 12 de abril de 1931 – Rio de Janeiro, 23 de março de 2012). Canção interpretada por Baiano e Os Novos Caetanos

Perfume da rosa

Quem bebe, rosa. o perfume
Que de teu seio respira?
Um anjo, um silfo? Ou que nume
Com esse aroma delira?

Qual é o deus que, namorado,
De seu trono te ajoelha,
E esse néctar encantado
Bebe oculto, humilde abelha?

– Ninguém? – Mentiste: essa frente
Em languidez inclinada,
Quem ta pôs assim pendente?
Dize, rosa namorada.

E a cor de púrpura vida
Como assim te desmaiou?
E essa palidez lasciva
Nas folhas quem ta pintou?

Os espinhos que tão duros
Tinhas na rama lustrosa,
Com que magos esconjuras
Tos desarmaram, ó rosa?

João Baptista de Almeida Garrett (Porto, Portugal, 4 de fevereiro de 1799 – Lisboa, Portugal, 9 de dezembro de 1854). In “Almeida Garrett – Seleção de poema”, Global Editora, 2011

República Federativa do Brasil – Ordem e progresso

Neste sábado, 15/11, são comemorados 136 anos da Proclamação da República ocorrida em 15 de novembro de 1889, que instaurou o presidencialismo no Brasil, encerrando a monarquia parlamentarista vigente durante o Império, destituindo o imperador Pedro II.

Ela ocorreu no Campo de Santana, no Rio de Janeiro, então capital do Império, quando um grupo de militares do exército brasileiro, liderados pelo marechal Manuel Deodoro da Fonseca, destituiu o imperador e assumiu o poder no país, instituindo um governo “provisório” republicano, que se tornaria a Primeira República Brasileira, também conhecida como República Velha.

Bem leve

Bem leve leve, releve
Quem pouse a pele em cima de madeira
Beira beira, quem dera, mera mera, cadeira
Mas breve breve, revele
Vele, vele quem pese, dos pés à caveira
Dali da beira uma palavra cai no chão
Caixão dessa maneira
Uma palavra de madeira em cada mão
Imbuia, Cerejeira

Bem leve leve, releve
Quem pouse a pele em cima de madeira
Beira beira, quem dera, mera mera, cadeira
Mas breve breve, revele
Vele vele quem pese dos pés à caveira

Jacarandá, Peroba, Pinho, Jatobá
Cabreúva, Garapera

Uma palavra de madeira cai no chão
Caixão dessa maneira

Bem leve leve, releve
Quem pouse a pele em cima de madeira
Beira beira, quem dera, mera mera, cadeira
Mas breve breve, revele
Vele, vele quem pese, dos pés à caveira
Dali da beira uma palavra cai no chão
Caixão dessa maneira
Uma palavra de madeira em cada mão
Imbuia, Cerejeira

Jacarandá, Peroba, Pinho, Jatobá
Cabreúva, Garapera

Uma palavra de madeira cai no chão
Caixão, dessa maneira

Arnaldo Antunes (São Paulo, 2 de setembro de 1960) / Marisa Monte (Rio de Janeiro, 1 de julho de 1967). Canção de 1994

Poema cauda

Disse o gato pro rato:
Façamos um trato.
Perante o tribunal eu te denunciarei.

Que a justiça se faça.
Vem deixa de negaça,
É preciso afinal que cumpramos a lei.

Disse o rato pro gato:
– Um julgamento tal,
sem juiz, nem jurado, seria um disparate.
O juiz e o jurado

Serei eu, disse o gato.
E tu, rato, réu nato, eu condeno a meu prato.

Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido pelo seu pseudônimo Lewis Carroll (Daresbury, Inglaterra, 27 de janeiro de 1832 — Guildford, Inglaterra, 14 de Janeiro de 1898). Tradução de Augusto de Campos