Borges: Labirintos centenários…

O jornal Estadão publicou por ocasião do centenário de Borges o seguinte texto: “Jorge Luis Borges nasceu em Buenos Aires, em 24 de agosto de 1899. Um dos mais brilhantes e polêmicos escritores do século XX deixou, em seus contos, poemas e ficções, os seres imaginários, as metáforas e universos insondáveis que recorrem sempre a uma obsessão: o labirinto. Na data comemorativa de seu nascimento, o leitor pode caminhar pelos “Labirintos centenários” e encontrar, nos portais como retrato do escritor, textos e imagens que acompanharam Jorge Luis Borges na trajetória de sua vida. Sua relação com a política, a escrita, as mulheres ou o trabalho conjunto com o amigo Bioy Casares. Nos caminhos deste labirinto, pode-se achar os espelhos e os tigres, para, no fim do corredor – “no porão da sala de jantar” – deparar-se com a extraordinária visão do Aleph, “um lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do mundo, visto de todos os ângulos” e a figura mitológica do Minotauro, que reúne todas as matérias desta data especial. Para entrar neste labirinto basta procurar – o retrato de Borges – e se deixar levar por seus mundos imaginários…”

Jorge Luis Borges (Buenos Aires, Argentina, 24 de agosto de 1899 — Genebra, Suíça, 14 de junho de 1986)

Nothing

Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
Um para-brisa partido uma perna quebrada
O nada
Fisionomias massacradas
Tipoias em meus amigos
Portas arrombadas
Abertas para o nada
Um choro de criança
Uma lágrima de mulher à-toa
Que quer dizer nada
Um quarto meio escuro
Com um abajur quebrado
Meninas que dançavam
Que conversavam
Nada
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel’s check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada.
“Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada”!

Patrícia Galvão, conhecida como Pagu (São João da Boa Vista, São Paulo, 9 de junho de 1910 – Santos, São Paulo, 12 de dezembro de 1962). Publicado em “A Tribuna”, Santos/SP, em 23/09/1962

Tuas mãos

Quando tuas mãos saem,
amada, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?

Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.

A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.

Pablo Neruda (Parral, Chile, 12 de julho de 1904 — Santiago, Chile, 23 de setembro de 1973)

Paciência

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não para
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora vou na valsa
A vida tão rara

Enquanto todo mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência
E o mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

Será que é o tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara, tão rara

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para não

A vida não para não

Dudu Falcão (Recife, Pernambuco, 14 de junho de 1961) / Lenine (Recife, Pernambuco, 2 de fevereiro de 1959). Do álbum “Na pressão”, 1999

Loreni Schenkel: Ponte afetiva para o aconchego 3, Translação de sentimentos e Recuperando o passado 3

Pinturas • Esculturas • Multimídia • Instalação

Sou filha de mãe costureira, pai garçom e irmã de três, um homem e duas mulheres. Fatos que marcam minha vida é a partida precoce de minha mãe, ela com 39 e eu com 10. A partir de então minha infância foi abortada. Logo o trabalho faz parte de minha vida infantil, e também de meus irmãos. Esse foi o fato que me levou a resgatar a arte em minha vida. Entrei na Universidade de Brasília- UNB com 43 anos para cursar artes plásticas, de lá para cá busco constantemente estudar e praticar as várias linguagens que atuo; pintura, escultura, fotografia e instalação.”

Loreni Schenkel

As obras apresentadas acima foram mostradas pela artista em sua exposição individual “Aquilo da infância que ficou pelo caminho” (Espaço Cultural Renato Russo – Espaço Athos Bulcão – De 13/09/2022 a 30/10/2022 – Brasília).

Sobre o blog “Redescobrindo” Loreni comenta via WhatsApp: “Obrigada pela força e por levar a arte às pessoas.”

Contatos:
www.instagram.com/loreni.art
loreniartista@gmail.com
WhatsApp: 61 9 9992-7892
www.lorenischenkel.com