Sobre política 2

Questão 2

Um dos grandes livros de Tocqueville “A Democracia na América” causou um grande impacto deste a sua primeira edição, sendo que ainda hoje continua a causar grande interesse. Esse fato mostra que ela é uma obra polêmica, e que inclusive causou muitas interpretações por parte de seus leitores. Nesse sentido, a frase proposta ilustra bem a polêmica vivida em sua época, e que penso existir até hoje.

Melhor dizendo, alguns setores da intelectualidade entendem que ele de fato era um democrata, outros de que ele não o era tão claramente, devido inclusive à sua origem aristocrata e à sociedade conservadora em que vivia.

Na verdade, Tocqueville sempre foi um liberal, ou melhor, um liberal-conservador. Sua preocupação maior foi com o seu país (que vivia um quadro político bastante complexo) e na preocupação em desenvolvê-lo foi buscar na América uma inspiração que verdadeiramente o fascinou. Estudou à fundo a sociedade e a organização política norte-americana, admirando a organização e a participação dos cidadãos americanos em suas instituições. Sua obra é uma grande advertência sobre as vantagens, e sobretudo sobre os perigos que o processo democrático pode ocasionar. Talvez aí esteja a sua dificuldade interpretativa. Ele tinha uma tese de que a democracia e a tirania são as duas faces da mesma moda e que o dito cesarismo nada mais era do que a consequência da desordem provocada pelo advento da República e dos demagogos.

Em função do diverso modo de ver a relação entre Estado liberal e democracia, ocorreu entre o pensamento liberal a contraposição entre um liberalismo radical, ao mesmo tempo liberal e democrático, e um liberalismo conservador, liberal mais não democrático (contra uma proposta de alargamento do voto, vendo-o como uma ameaça à liberdade). Tocqueville representava, a ala mais conservadora do pensamento liberal do século XIX, enquanto que Sturt Mill a ala mais radical.

Para Tocqueville a democracia significa a forma de governo em que todos participam da coisa pública, ao mesmo tempo em que significa a sociedade que se inspira no ideal da igualdade. A ameaça que deriva da democracia é chamada de tirania da maioria ou seja, o perigo que a democracia corre com progressiva realização do ideal igualitário é o “nivelamento” que gera o despotismo. Tocqueville sendo não democrático porque considera a democracia como um sistema que exalta o valor da igualdade, tanto social, como política. Propõe inclusive uma igualdade de condição em prejuízo da liberdade.

Um dos grandes interesses de sua obra é a sua visão quase que profética, onde chega inclusive a afirmar que um dia a democracia irá se traduzir em seu contrário, portando em si o germe de um novo despotismo (governo centralizado e onipresente).

Artigo feito durante a minha estadia na Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, na data de 24 de maio de 1989, para o curso de Ciências Sociais, matéria Política III, ministrada pelo professor Eduardo Kugelmas.

Meu nº. USP: 5261633

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 18 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

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