O livro da vida

Absorto, o Sábio antigo, estranho a tudo, lia…
— Lia o “Livro da Vida” — herança inesperada,
Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria
Ao primeiro clarão da primeira alvorada.

Perto dele caminha, em ruidoso tumulto,
Todo o humano tropel num clamor ululando,
Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,
Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.

Passa o Estio, a cantar; acumulam-se Invernos;
E ele sempre, — inclinada a dorida cabeça, —
A ler e a meditar postulados eternos,
Sem um fanal que o seu espírito esclareça!

Cada página abrange um estádio da Vida,
Cujo eterno segredo e alcance transcendente
Ele tenta arrancar da folha percorrida,
Como de mina obscura a pedra refulgente.

Mas o tempo caminha; os anos vão correndo;
Passam as gerações; tudo é pó, tudo é vão…
E ele sem descansar, sempre o seu Livro lendo!
E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.

Nesse eterno cismar, nada vê, nada escuta:
Nem o tempo a dobrar os seus anos mais belos,
Nem o humano sofrer, que outras almas enluta,
Nem a neve do Inverno a pratear-lhe os cabelos!

Só depois de voltada a folha derradeira,
Já próximo do fim, sobre o livro, alquebrado,
É que o Sábio entreviu, como numa clareira,
A luz que iluminou todo o caminho andado..

Juventude, manhãs de Abril, bocas floridas,
Amor, vozes do Lar, estos do Sentimento,
— Tudo viu num relance em imagens perdidas,
Muito longe, e a carpir, como em nocturno vento.

Mas então, lamentando o seu estéril zelo,
Quando viu, a essa luz que um instante brilhou,
Como o Livro era bom, como era bom relê-lo,
Sobre ele, para sempre, os seus olhos cerrou…

António Feijó (Ponte de Lima, Portugal, 1 de junho de 1859 – Estocolmo, Suécia, 20 de junho de 1917). In “Sol de inverno”

A gaivota

Passa-me o rio em frente da janela,
Muita vez, ao luar, noites de rosa,
vejo boiando uma gaivota ansiosa
sobre a corrente murmura, singela.

É sempre a mesma. É uma delícia vê-la;
e tanto me entretém, — voluptuosa,
que chego, nesta vida trabalhosa,
quando ela falta, a ter saudades dela.

Pois que, vendo-a passar boiando e mansa,
sinto-me alegre, e ocorrem-me à lembrança
as conquistas, a lira, a morbideza*

de um trovador ditoso, flutuando
pelos canais, em gôndola, cantando,
nas amorosas noites de Veneza.

António Fogaça (Barcelos, Portugal, 11 de maio de 1863 – Coimbra, Portugal, 27 de novembro de 1888)

Ela, em meu sonho

Ela vivia num palácio mouro…
Nas harpas, os seus dedos a espreitarem
como pajens curiosos, a afastarem
os cortinados todos fios de ouro.

As suas mãos, tão leves como as aves,
ora fugiam volitando, frias,
ora pesam, trêmulas, suaves,
nas cordas, a sonharem melodias…

E os sons que ela tangia, aos seus ouvidos
chegaram, receosos de senti-la,
voltavam a não ser nunca tangidos.

É que ela, as suas mãos, as harpas de ouro,
não eram mais do que um supor ouvi-la
e o meu julgá-la num palácio mouro.

Alfredo Guisado (Lisboa, Portugal, 30 de outubro de 1891 – Lisboa, Portugal, 2 de dezembro de 1975). In “Antologia poética”

Breve

Breve
o botão que foste
e o pudor de sê-lo

Breve
o laço vermelho
dado no cabelo.

Breve
a flor que abriu
e o sol saudou

Breve
tanto sonho findo
que a vida pisou.

João José Cochofel (Coimbra, Portugal, 17 de julho de 1919 – Lisboa, Portugal, 14 de março de 1982). In “46.º aniversário”

Regresso ao lugar

Volto sempre ao lugar do poema
como o criminoso ao lugar do crime
As árvores cobriram-se de cabelos loiros e
só posso apaixonar-me esta manhã

Os cabelos loiros das árvores cobriram-se
de neve e
só posso apaixonar-me esta tarde
Volto sempre ao lugar do crime
como o criminoso ao lugar do poema

Só posso apaixonar-me pela paixão
Volto sempre ao lugar do coração
esta noite
como o sagrado ao lugar do silêncio
A neve dos cabelos loiros das árvores
cobriu-se de nuvens
e chove

António Barahona da Fonseca (Lisboa, Portugal, 17 de janeiro de 1939)