Fotos tiradas por Joca Paciello: Formado em Economia pela USP, empresário, produtor e agente cultural e sócio-diretor da empresa Black River Produções Artísticas.
Contato:
www.instagram.com/jocapaciello
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Fotos tiradas por Joca Paciello: Formado em Economia pela USP, empresário, produtor e agente cultural e sócio-diretor da empresa Black River Produções Artísticas.
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Gaúcho começou a procurar-me. A noite acocorava-se junto à minha esteira, ficava até a hora do silêncio a entreter-me com a narração das suas complicadas aventuras. Esforçava-me por entendê-lo, às vezes o interrompia buscando compreender alguma expressão de gíria. Vanderlino trocava-me em linguagem comum a prosa obscura, e na ausência dele a conversa arrastava-se, cheia de equívocos e repetições.
– Os homens, dizia Gaúcho, dividem-se em duas classes: malandros e otários, e os malandros nasceram para engrupir os otários.
Ria-me com a franqueza do meu esquisito amigo:
– Eu, naturalmente, devo figurar na categoria dos otários, não é verdade?
– Se vossa mercê não é malandro… Só há duas classes.
Logo no segundo ou terceiro encontro o arrombador me fez esta observação curiosa:
– Vossa mercê usa panos mornos comigo, parece que tem receio de me ofender. Não precisa ter receio, não; diga tudo: eu sou ladrão.
– Sim, sim, retruquei vexado. Mas isso muda.
Lá fora você pode achar ofício menos perigoso.
– Não senhor, nunca tive intenção de arranjar outro ofício, que não sei nada. Só sei roubar, muito mal: sou um ladrão porco.
Diversos profissionais corroboravam esse juízo severo, ostentavam desprezo à modesta criatura. Eram em geral vaidosos em excesso, fingiam possuir qualidades extraordinárias e técnica superior. Tentavam enganar-nos, talvez enganar-se, mentiam, queriam dar a impressão de realizar trabalho perfeito. Não se misturavam com os indivíduos comuns, e o natural expansivo do escrunchante exasperava-os. Obtive lápis, papel, comecei de novo a tomar notas, embora fosse quase certo jogá-las fora.
(…)
Graciliano Ramos (Quebrangulo, Alagoas, 27 de outubro de 1892 – Rio de Janeiro, 20 de março de 1953). In “Memórias do cárcere” – Volume II, Capítulo 17, Literatura comentada, Nova Cultural, 1988
Arrasado o jardim, profanados os cálices e os altares, entraram a cavalo os hunos na biblioteca monástica e rasgaram os livros incompreensíveis e os injuriaram e queimaram, talvez temerosos de que as letras encobrissem blasfêmias contra seu deus, que era uma cimitarra de ferro. Arderam palimpsestos e códices, mas no coração da fogueira, entre as cinzas, permaneceu quase intato o livro duodécimo da Civitas Dei, que narra que Platão ensinou em Atenas e, no fim dos séculos, todas as coisas recuperarão seu estado anterior, e que ele, em Atenas, diante do mesmo auditório, de novo ensinará essa doutrina. O texto que as chamas perdoaram desfrutou de veneração especial e os que o leram e releram nessa remota província esqueceram que o autor só declarou tal doutrina para poder melhor refutá-la. Um século depois, Aureliano, coadjutor de Aquiléia, soube que às margens do Danúbio a novíssima seita dos monótonos (chamados também anulares) professava que a história é um círculo e que nada é que não tenha sido e que não será. Nas montanhas, a Roda e a Serpente tinham deslocado a Cruz. Todos temiam, mas todos se confortavam com o boato de que João de Panonia, que se distinguira com um tratado sobre o sétimo atributo de Deus, ia impugnar tão abominável heresia.
Aureliano deplorou essas notícias, sobretudo a última. Sabia que em matéria teológica não há novidade sem perigo; depois refletiu que a tese de um tempo circular era demasiado dissímil, demasiado assombrosa para que o perigo fosse grave. (As heresias que devemos temer são as que podem confundir-se com a ortodoxia.) Mais lhe doeu a intervenção – a intrusão – de João de Panonia. Havia dois anos, ele usurpara com seu palavroso De Septima Affectione Dei Sive de Aeternitate um assunto da especialidade de
Aureliano; agora, como se o problema do tempo lhe pertencesse, ia retificar, talvez com argumentos de Procusto, com triagas mais temíveis que a Serpente, os anulares… Nessa noite, Aureliano folheou o antigo diálogo de Plutarco sobre a cessação dos oráculos; no parágrafo vinte e nove, leu uma burla contra os estóicos que defendem um infinito ciclo de mundos, com infinitos sóis, luas, Apolos, Dianas e Poseidons. O achado pareceu-lhe prognóstico favorável; resolveu adiantar-se a João de Panonia e refutar os heréticos da Roda.
(…)
Jorge Luis Borges (Buenos Aires, Argentina, 24 de agosto de 1899 — Genebra, Suíça, 14 de junho de 1986), In “O Aleph”, tradução de Flávio José Cardoso, Porto Alegre: Editora Globo, 1972
Belas fotos tiradas em Presidente Epitácio e enviadas via WhatsApp pelo primo Antonio Eduardo Silva (Toninho da Texaco).
Meu governo me mandava ao México. Cheio dessa opressão mortal produzida por tanto sofrimento e desordem, cheguei no ano de 1940 ao pequeno planalto de Anahuac respirando o que Alfonso Reyes dizia ser a região mais transparente de ar.
México, com seu nopal e sua serpente, México florido e espinhoso, seco e tempestuoso, violento de desenho e de cor, violento de erupção e criação, cobriu-me com seu sortilégio e sua luz espantosa.
Percorri-o por anos inteiros de mercado a mercado. Porque o México está nos mercados, não está nas guturais canções dos filmes nem na falsa vulgaridade de bigode e pistola, O México é uma terra de grandes mantas cor de carmim e turquesa fosforescente. O México é uma terra de vasilhas e cântaros e de frutas cortadas debaixo de um enxame de insetos. O México é um campo infinito de magueis de tintura azul-cobalto e coroa de espinhos amarelos.
Tudo isto os mercados mais belos do mundo dão a ele. A fruta e a lã, o barro e os teares, mostram o poderio assombroso dos dedos mexicanos, fecundos e eternos.
Vaguei pelo México, percorri a sua costa toda, sua alta costa alcantilada, incendiada por um perpétuo relâmpago fosfórico. Desde Topolobambo em Sinaloa, desci por esses nomes hemisféricos, ásperos nomes que os deuses deixaram de herança ao México quando em seu território os homens, menos cruéis que os deuses, começaram a mandar. Andei por todas essas sílabas de mistério e esplendor e por esses sons primordiais. Sonora e Yucatán, Anahuac que se ergue como um braseiro frio de onde chegam todos os confusos aromas desde Nayarit até Minhoacan, desde onde se percebe a fumaça da pequena ilha de Janitzio e o olor de maís maguei que sobe por Jalisco e o enxofre do novo vulcão de Paricutín juntando-se à umidade fragrante dos peixes do lago de Pátzcuaro. México, o último dos países mágicos, mágico de antiguidade e de história, mágico de música e de geografia. Fazendo meu caminho de vagabundo por essas pedras açoitadas pelo sangue perene, entrecruzadas por um largo fio de sangue e de musgo, senti-me imenso e antigo, digno de andar entre tantas criações imemoriais. Vales abruptos interrompidos por paredes de rocha; colinas elevadas se alternam, recortadas rente como por uma faca; Imensas selvas tropicais, ferventes de madeira e de serpentes, de pássaros e de lendas. Naquele vasto território habitado até seus últimos confins pela luta do homem no tempo, em seus grandes espaços descobri que éramos, Chile e México, os países antípodas da América. Nunca me comoveu a convencional frase diplomática que faz com que o embaixador do Japão ache nas cerejeiras do Chile, como o inglês em nosso nevoeiro da costa, como o argentino ou o alemão em nossa neve circundante, ache que somos parecidos, muito parecidos com todos os países. Alegra-me a diversidade da terra, a fruta terrestre diferenciada em todas as latitudes. Não estou depreciando o México, o país amado, considerando-o o mais distante de nosso país oceânico e cereal, mas destaco suas diferenças para que nossa América ostente todos os seus aspectos, suas alturas e suas profundidades. E não há na América nem talvez no planeta, país de maior profundidade humana que o México e seus homens. Através de seus acertos luminosos como através de seus erros gigantescos vê-se a mesma cadeia de generosidade grandiosa, de vitalidade profunda, de inesgotável história, de germinação interminável.
(…)
Pablo Neruda (Parral, Chile, 12 de julho de 1904 — Santiago, Chile, 23 de setembro de 1973). In “Confesso que vivi”, tradução de Olga Savary, Difel – São Paulo: Difusão Editorial S. A., 1974
De fruta é tua textura
e assim concreta;
textura densa que a luz
não atravessa.
Sem transparência:
não de água clara, porém
de mel, intensa.
Intensa é tua textura
porém não cega;
sim de coisa que tem luz
própria, interna.
E tens idêntica
carnação de mel de cana
e luz morena.
Luminosos cristais
possuis internos
iguais aos do ar que o verão
usa em setembro.
E há em tua pele
o sol das frutas que o verão
traz no Nordeste.
É de fruta dó Nordeste
tua epiderme:
mesma carnação dourada.
solar e alegre.
Frutas crescidas
no Recife relavado
de suas brisas.
Das frutas do Recife.
de sua família.
tens a madeira tirante.
muito mais rica.
E o mesmo duro
motor animal que pulsa
igual que um pulso.
De fruta pernambucana
tenso animal,
frutas quase animais
e carne carnal.
Também aquelas
de mais certa medida,
melhor receita.
o teu encanto está
em tua medida,
de fruta pernambucana,
sempre concisa.
E teu segredo
em que por mais justo tens
corpo mais tenso.
Tens de uma fruta aquele
tamanho justo; .
não de todas. de fruta
de Pernambuco.
Mangas,mangabas
do Recife. que sabe
mais desenhá-las.
És um fruto medido.
bem desenhado;
diverso em tudo da jaca,
do jenipapo.
Não és aquosa
nem fruta que se derrama
vaga e sem forma.
Estás desenhada a lápis
de ponta fina.
tal como a cana-de-açúcar
que é pura linha.
E emerge exata .
da múltipla confusão
da própria palha.
És tão elegante quanto
um pé de cana,
despindo a perna nua
de dentre a palha.
E tens a perna
do mesmo metal sadio
da cana esbelta.
o mesmo metal da cana
tersa e brunida
possuis, e também do oiti,
que é pura fibra.
Porém profunda
tanta fibra desfaz-se
mucosa e úmida.
Da pitomba possuis.
a qualidade
mucosa, quando secreta,
de tua carne.
Também do ingá,
de musgo fresco ao dente
e ao polegar.
Não és uma fruta fruta
só para o dente,
nem és uma fruta flor,
olor somente.
Fruta completa:
para todos os sentidos,
para cama e mesa.
(…)
João Cabral de Melo Neto (Recife, Pernambuco, 9 de janeiro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1999). In “Morte e vida Severina e outros poemas em voz alta”. Livraria José Olympio Editora, 1976