Em meu poema “Visões de hoje do outrora”, que o saudoso José Carlos Neves Lopes, ourinhense entusiasta de música clássica, cinema, teatro e literatura, publicou originalmente em 2008 em seu blog “Memórias Ourinhenses”, escrevi um dia sobre a Diacuí:
“(…)
No rio aperfeiçoei meu nado
Aprendido na piscina azul do clube
Diacuí e que guarda a memória de 32
(…)”
Com mais de 70 anos de tradição, já que foi fundado no dia 25 de janeiro de 1954, data em que a cidade de São Paulo comemorou o Quarto Centenário de sua fundação, e sendo um dos clubes mais queridos de Ourinhos-SP, o Clube de Campo e Balneário Diacuí, que já se chamou Clube 9 de Julho, sempre foi responsável por felizes tardes de domingo aos seus privilegiados sócios, como fomos eu e os membros de minha família. Ele é um tradicional clube de minha cidade natal e localiza-se às margens do rio Paranapanema, perto da Vila Odilon, onde nasci. Possui em sua estrutura salões para eventos, quiosques para confraternizações e uma estrutura completa para receber os mais diversos tipos de acontecimentos.
Nele é marcante o monumento que lembra os combatentes de 1932 e que está instalado exatamente no local onde foram as trincheiras. A frase na placa que diz “Neste solo tremulou bandeira de treze listas. Aqui também palpitou o coração dos paulistas” é de autoria do professor Norival Vieira da Silva. O obelisco foi idealizado durante o segundo governo do prefeito José Maria Paschoalick (1958-1959) e inaugurado pelo prefeito Antônio Luiz Ferreira (1960-1963) no dia 9 de julho de 1962. Meu tio Ângelo Silva, sócio-fundador da Diacuí, era um entusiasta da Revolução de 32, e esta homenagem foi iniciativa sua.
Outro destaque do clube são as suas piscinas, sendo que a mais antiga, onde aperfeiçoei meu nado, como digo na poesia, foi inaugurada entre 1959 e 1962, pelo que pude constatar. E também tem entre seus destaques os animados bailes de carnaval que, na década de 1980, o clube começou a promover. E outros eventos interessantes acontecem por lá como a Aqua Dance no Diacuí, o Arraiá do Diacuí, as aulas de vôlei de praia, o Baile do Hawaii, o Diacuí Rock festival, a Escolinha de futebol infantil, a Feijoada do Diacuí – com música ao vivo, a Festa a fantasia do Diacuí, a Festa das crianças, a Festa das tribos, a Festa Junina do Diacuí, o happy hour no bar do campo, o Matinê de carnaval, a Procissão fluvial à Nossa Senhora Aparecida, o Rachão no Diacuí, o evento “Recordando os bons tempos”, os torneios de futevôlei, os variados campeonatos de futebol, entre outros.
Para ir lá no clube, saindo de minha casa na Vila, bastava seguir pela antiga Rua Paranapanema (atual Rua Padre Rui Cândido da Silva), conhecida pelos antigos como “rua da balsa”, numa alusão à balsa que fazia a travessia do rio, dobrar à direita no trecho cortado pela Rodovia Raposo Tavares (SP-270), que liga São Paulo capital até a divisa com Mato Grosso do Sul, e pegar logo à frente à esquerda uma ruazinha de terra, doida para atolar os carros em dias de chuva, cheia de brejos e lagoas.
Um aspecto importante é que na economia local vê-se que o eixo que norteava a vida e o trabalho naquela região era a atividade desenvolvida pelas olarias no processamento da argila retirada das barrancas do rio Paranapanema. Todos os empreendedores desse ramo vieram atraídos pela excelência da matéria-prima encontrada em abundância às margens daquele rio, nas proximidades de onde hoje está instalado o Clube Diacuí. Esse material, conhecido como arenito de Botucatu, era ideal para a fabricação de tijolos e telhas, apresentando colorações diferentes que, misturadas, forneciam a liga ideal para o manuseio.
Para a sua divulgação diz com mérito a propaganda do balneário no Facebook: “Com 71 anos de tradição, somos um dos clubes mais queridos de Ourinhos, um verdadeiro refúgio para lazer, diversão e momentos inesquecíveis com a família e amigos.”
A história da índia Diacuí Aiute Kalapalo mostra que ela foi uma indígena pertencente ao povo Kalapalo, do tronco linguístico karib, que historicamente ocupava a região do Alto Xingu, localizado no estado de Mato Grosso. Baseado nos relatos de sertanista Ayres Câmara Cunha, participante da expedição Roncador-Xingu e que teve com ela um relacionamento amoroso, acredita-se que ela tenha nascido por volta do ano de 1933, sendo considerada a mais linda de todas as mulheres Kalapalo. Foi classificada referência de beleza, inclusive, nos padrões ocidentais da sociedade brasileira.
Sua trajetória é marcada por um casamento e morte trágicos. Ela foi a primeira indígena a se casar com um homem branco no Brasil, Ayres Câmara Cunha, um funcionário do Serviço de Proteção ao Índio (SPI). O casamento, celebrado na década de 1950, gerou controvérsia e repercussões na comunidade indígena e na sociedade brasileira, com relatos de que Diacuí não compreendia a língua portuguesa e ser casada sem o seu consentimento. A sua história, escrita por seu marido, relata seus últimos momentos, morte e sepultamento, gerando debates sobre a cultura indígena, a relação com o mundo branco e a necessidade de proteção aos direitos indígenas.
Graças a essa expedição o sertanista conheceu Diacuí na aldeia de seu grupo durante a adolescência dela, mais precisamente quando tinha 13 anos, durante uma das visitas à sua aldeia no ano de 1946. Diacuí era uma figura muito importante entre o seu grupo, filha de um cacique, Nahuquá, com uma indígena Kalapalo de nome Apacu. Teve seu processo de formação da pessoa interferido por Ayres quando este chegou pela primeira vez à aldeia, pois acontece que fazia parte dos ritos dos Kalapalo isolar os sujeitos que estivessem na fase da puberdade com a intenção de preservar o indivíduo e, principalmente, toda a comunidade. Segundo a crença dos indígenas, se houvesse interferência nesta etapa grandes consequências seriam sentidas no seio do grupo, pois, a corporalidade é mecanismo essencial para a garantia da formação do ethos grupal.
O modelo de brasilidade estaria respaldado na união do homem branco com a indígena, no caso, eles serviriam de exemplo para o restante do povo de que a mistura de raças não era um fator degenerativo e sim particularidade a ver valorizada na constituição étnica do brasileiro, uma espécie de privilégio e comunhão das raças que existiria somente aqui. Vários intérpretes do Brasil convergiam e desenvolveram esse pensamento social, um exemplo é o sociólogo Gilberto Freyre que, com destaque à Casa-grande & Senzala, atribuía ser muito comum o envolvimento sexual de indígenas com os colonos pelo fato de haver pouca oferta de mulheres brancas. Em consequência, o resultado foi a formação particular do povo brasileiro representado na figura do mestiço que reunia as melhores qualidades do português com o indígena.
Acima fac-símile da revista que foi guardada com muito carinho por meu pai intitulada “Correio de notícias” (Publicada pelo jornal “Diario da Sorocabana” – Um jornal de combate. A serviço do povo) – Natal de 1957 – Ourinhos “Símbolo de progresso da Média Sorocabana”.
Na antiga matéria lê-se: “Seus fundadores, denominados “Bandeirantes”, nunca imaginaram que a semente lançada viesse a produzir tão grandes frutos. Eram eles: Angelo Silva, Waldomiro Seixas, José Silva, e o Sr. Tsumo Teshima.”
Artigo escrito em parceria com meu primo materno Marco Aurélio da Silva (29/09/1948 – 28/06/2025)