Pico, meu Pico, eis-te agora
como eu gosto de te ver,
a fronte dominadora
sem tristes véus a erguer!
Rasgou-se o manto cinzento
que envolvendo o firmamento
quase inteiro te escondeu,
e o teu talhe aprimorado
lá vou vendo desenhado
no límpido azul do céu!
…
Como eu te vejo, enlevada,
teu véu de ouro cobrir!
que linda cinta nevada
vem o teu colo cingir!
Dize-me tu – não se acha
doce augúrio nessa faixa
de transparente, alvo tul?
Não prediz ela bonança
num prado cor de esperança,
num céu azul, muito azul?
Prediz-nos serenidade
no espaço, na terra e no mar;
fala-nos na suavidade
dumas manhãs d’encantar!…
Mas sombrio capacete
se acaso cobre, promete,
profetiza o temporal;
a guerra dos elementos,
a fúria solta dos ventos
destruidora, inda mal!
Mas hoje não é meu Pico
o profeta ameaçador!
hoje extasiada fico
diante do seu primor.
Hoje é lindo panorama
que as vistas atrai e chama
com atractivos sem fim!
toda a graça que apresenta
toda a beleza que ostenta,
tem sempre encanto para mim.
…
Amélia Ernestina Avelar (Vila da Madalena, Ilha do Pico, Açores, Portugal, 1 de maio de 1849 – Angra do Heroísmo, Angola, 13 de outubro de 1887). In “Ensaios poéticos”, Horta, Portugal: Edição da família, 1949