I
Longe, n´um valle de arvoredo umbroso,
gorgeia um pintassilgo enamorado;
ouço-lhe o trino meigo e lamentoso,
o accento apaixonado…
E scismo, em volta na volupia doce,
como se outr´ave enamorada eu fosse.
II
Ao madrigal do pássaro responde,
dentro em meu peito, um límpido gorgeio…
— E´minh´alma que trila, sobre a fronde
da crença, amante o seio!…
— Aves se affectos, scismas e luares,
compreendem-se e casam-se nos ares!…
III
O coração de onde deserta o sonho
é desolado como um Campo-Santo;
cinge-o nos élos frios um medonho
réptil, — o Desencanto,
Quando ele guáia e em prantos se abebéra,
fogem, voando, o Amor e a Primavera.
IV
Ai! da creança, que lhe brinca à porta!…
Ai! do sedento, que o demande!… Móra
na cryspa esconsa, da Esperança mórta
a sombra , que apavora…
— Negreje a noute, resplandeça o dia,
mésta, uma estrige, nos salgueiros pía!
V
Por isso guardo o sonho meu captivo,
há longos annos, neste cófre d´alma,
— Canto, emudeço, e, incompreendida, vivo
triste, silente, calma,
a esse gorgeio magico, distante,
— o ouvido atento, — a alma saudosa e amante.
Narcisa Amália (São João da Barra, Rio de Janeiro, 3 de abril de 1852 — Rio de Janeiro, 24 de julho de 1924). Poeta, escritora, tradutora e crítica literária, foi reconhecida como a primeira mulher a trabalhar como jornalista profissional no Brasil. Escreveu na revista “A Leitura” (1894 – 1896) muitos artigos sobre o feminismo e a república. Sua obra poética também é voltada ao combate à opressão da mulher na sociedade e o regime escravista