É bela a cecém do vale
Quando desponta mimosa,
Sobre o caule, melindrosa,
Ao rutilar do arrebol;
Quando a gota etérea e pura
Que chora o céu sobre a terra,
O lindo seio descerra
Aos frouxos raios do sol.
É bela a meiga criança
Sorrindo à luz da existência,
Co’a alma – toda inocência,
E a face – toda rubor!
Os róseos lábios ungidos
Por mil acentos – suaves
Como o gorjeio das aves,
Como um suspiro da amor!…
Des’brocha o lírio, mais alvo
Que o tênue floco de neve;
A viração fresca e leve
Lhe oscula as pétalas – feliz;
Ternos carmes lhe murmura
A namorada corrente,
Que se deriva indolente
Por sobre o flóreo tapiz.
Assim a virgem formosa
Torna-se mais sedutora,
Quando a poesia enflora
Sua beldade ideal!
Quando no brilho fulgente
Dos olhos vívidos, belos,
Su’alma ardente de anelos
Mostra candor divinal!
Então, se a fita a miséria
Sente no seio a esperança;
A um seu sorriso a criança
Ligeira tenta sorrir;
Aos lábios – casto delírio
Implora a audaz borboleta;
O mesmo altivo poeta
Pede-lhe um raio de amor!…
E tudo, tudo o que a cerca
De medrosos juramentos,
Vê, nos vagos pensamentos,
A candidez que seduz!
E tudo, tudo o que sofre
Vê que, à imagem de Maria,
A virgem – flor de poesia –
Deus fez repleta de luz!
Que o Senhor a ti, ó virgem,
– Símbolo de amor e candura –
Poupe a taça da amargura
Que a meu lábio não poupou!
Que se desdobre nitente
A fita de tua vida,
De tantos sonhos tecida
Quantos o céu me negou!
Narcisa Amália (São João da Barra, Rio de Janeiro, 3 de abril de 1852 — Rio de Janeiro, 24 de julho de 1924). Poeta, escritora, tradutora e crítica literária, foi reconhecida como a primeira mulher a trabalhar como jornalista profissional no Brasil. Escreveu na revista “A Leitura” (1894 – 1896) muitos artigos sobre o feminismo e a república. Sua obra poética também é voltada ao combate à opressão da mulher na sociedade e o regime escravista