Pela memória do mestre Sarubbi

Em 1999, um ano e sete meses antes de sua morte, Valdir Sarubbi concluiu o seu livro de memórias intitulado “Estórias Paralelas”. Dessa obra de 140 páginas seleciono dois trechos do conto “Outras Memórias”, que encerra o livro e onde Quelé, alter-ego do autor, relembra, segundo palavras do próprio Sarubbi, “sua primeira infância no sítio ao levar o filho adolescente para conhecer o lugar. Tem uma vivência muito forte junto com o filho ao banhar-se em um igarapé onde se esquece do relógio que o acompanhou durante muitos anos”.

“Escrevi estas memórias numa tarde de Outubro quase trinta anos depois que fui pela ultima vez à Lontra. Voltei lá quando senti necessidade de mostrar a meu filho aquele pedaço de terra onde vivi minha infância. Mostrei para ele coisa por coisa do que ainda existia lá. A mangueira de perto da casa envelheceu e se tornou uma árvore imensa. A casa onde morávamos está aos pedaços, mais parece uma tapera. Os bacurizeiros permanecem ainda lá, também encanecidos, mas bastante altaneiros. Contei estórias para ele. Eu dizia: aqui fiz isso, ali fiz aquilo. Ele sorria e parecia reconhecer tudo. Porque quando ele era pequeno eu costumava me sentar ao lado de sua cama na hora de dormir e lhe contava esses e outros fatos que acabei contando neste relato.”

(…)

“Ao escrever essas memórias fico tentando imaginar aquele relógio que me acompanhou durante uma boa parte de minha vida certamente com seus ponteiros parados, misturado com os pedregulhos, escondido na areia fininha. E naquele silêncio molhado as piabinhas darão voltas e revoltas por cima do local onde ele está adormecido. Talvez um dia alguém o encontre e o coloque no braço, sem ter a mínima idéia que ele já esteve no meu. Mas é possível também que ele permaneça lá, solitário enterrado, imune ao encontro, pelos séculos dos séculos, amém.”

Gravura em metal do artista paraense Valdir Sarubbi e seu livro inédito – acervo família Sarubbi – edição póstuma

Valdir Sarubbi (Bragança, Pará, 10 de outubro de 1939 – São Paulo, 8 de novembro de 2000)

Foto: Sonia Zveibil

Leia mais

Autor: ematosinho

Eduardo Matosinho tem 61 anos, nasceu em Ourinhos - SP em 1964 e é economista e sociólogo com bacharelados pela Universidade de São Paulo (USP). É casado com Luiza Maria da Silva Matosinho e com ela tem um filho de nome João Alexandre da Silva Matosinho. Mora em São Paulo e trabalha na Galeria Pontes, dedicada à arte popular brasileira contemporânea (https://www.galeriapontes.com.br/), onde já está há 18 anos. Sempre apreciou pintar e pesquisar sobre a história da arte e seus artistas. Começou a estudar artes plásticas em sua juventude vivida em sua cidade natal com o professor Francisco Claudio Granja (1976-1978). Em São Paulo estudou desenho e pintura em cursos ministrados em um Ateliê Livre por Valdir Sarubbi (1980–1983 e 1998–2000) e pintura com Selma Daffrè (2000-2003).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *