Narciso cego

Tudo o que de mim se perde
acrescenta-se ao que sou.
Contudo, me desconheço.
Pelas minhas cercanias
passeio — não me frequento.

Por sobre fonte erma e esquiva
flutua-me, íntegra, a face.
Mas nunca me vejo: e sigo
com face mal disfarçada.
Oh que amargo é o não poder
rosto a rosto contemplar
aquilo que ignoto sou;
distinguir até que ponto
sou eu mesmo que me levo
ou se um nume irrevelável
que (para ser) vem morar
comigo, dentro de mim,
mas me abandona se rolo
pelos declives do mundo.

Desfaço-me do que sonho:
faço-me sonho de alguém
oculto. Talvez um Deus
sonhe comigo, cobice
o que eu guardo e nunca usei.

Cego assim, não me decifro.
E o imaginar-me sonhado
não me completa: a ganância
de ser-me inteiro prossegue.
E pairo — pânico mudo —
entre o sonho e o sonhador.

Thiago de Mello (Barreirinha – Amazonas, 30 de março de 1926 – Manaus – Amazonas, 14 de janeiro de 2022), publicado no livro “Narciso Cego; Seguido do Romance do Primogênito” (1952).

Poema enviado por WhatsApp pela amiga Maria Isabel Pellegrini Vergueiro que me fala assim: “Vai um poeminha para você… há dias que estou com ele na cabeça.

Beno Ink: Remote Flow, Time Movement e Conquer

Sempre gostei de desenhar, desde pequeno, fiz curso de quadrinhos, desenhava na sala de aula, vendi algumas artes nestes anos, mas realmente nunca fui muito além. Meu pai também sempre desenhou e pintou diversos quadros também, inclusive hoje desenha diariamente, (…), me inspirou bastante, tanto a começar, quanto a continuar e desenvolver essa habilidade.

Beno Ink

Contatos:
beno.inkart@gmail.com
WhatsApp: (11) 9 6068-5300
https://beno.ink/art-gallery

Olhar em nosso outono

liberto os olhos do livro
agora a claridade vulgar
a nossa vista embaça

foi-se o tempo de tocar com as mãos
como o livro, nos fechamos, imaginamos
ardente o gélido pretérito presente

fria esta tarde indiferente
muito não mais temos
tantos ausentes seremos
encolhidos aquietamos

assim vemos o vento
quando ele se veste
das coisas que varre
neste nosso outono

Edney Cielici Dias, in “Cartas da alteridade”, Selo Demônio Negro (https://bit.ly/3wZvPjN)- Poeta devotado ao ofício da palavra, é doutor em ciência política, economista, jornalista e editor.

Relato de coisa muito antiga

“Foi no tempo em que as ruas de nossa cidade ainda tinham nomes de santos. A travessa Cônego Miguel, por exemplo, chamava-se Santo Antônio; a Serzedelo Corrêa era São Mateus; a Cipriano Santos, São João. A Senador Pinheiro não tinha nome de santo, mas chamava-se romanticamente Rua do Sol porque descia exatamente na direção onde, durante um certo tempo do ano, o sol nascia. Quem olhasse, manhãzinha, daqui de cima, tinha a exata impressão que a bola enorme do sol, durante alguns momentos, pousava sobre o leito da rua, lá em baixo. Era um quadro bonito, mas ninguém prestava atenção. Rua era para andar.

Foi no tempo em que essas ruas não tinham ainda a luz elétrica que têm hoje, mas toscos lampiões de querosene que quase nada iluminavam, quase nada clareavam. Tardinha, mal começava a escurecer, os empregados da Intendência percorriam as poucas ruas que tinham este privilégio. Abasteciam e depois acendiam. A criançada que morava por perto acompanhava a tarefa com um sorriso nos lábios, entre pulos e gritos, cada vez que uma luz aparecia. Os lampiões tinham uma luz mortiça e amarelada…”

Em 1999, um ano e sete meses antes de sua morte, Valdir Sarubbi concluiu o seu livro de memórias intitulado “Estórias Paralelas”. Dessa obra de 140 páginas seleciono o trecho acima do conto intitulado “Relato de coisa muito antiga”.

Valdir Sarubbi (Bragança, Pará, 10 de outubro de 1939 – São Paulo, 8 de novembro de 2000)

Leilão de Arte Popular de Abril/ 22 – Fibra Leilões (com participação de obras da Galeria Pontes)

Exposição

De 1 a 13 de abril de 2022
De quarta a sexta feira das 11h às 17h

E-mail: contato@fibragaleria.com.br

Whatsapp: (11) 9 9105-1859 (Jairo) ou (11) 9 7645-2902 (Maíra)

Leilão

Dias 12 e 13 de abril de 2022
Terça e quarta-feira às 20h
Somente online

Leiloeira: Maíra Maciel – Jucesp nº 1208

Local: Rua Tinhorão, 69 – Higienópolis – São Paulo

Catálogo disponível: https://www.fibragaleria.com/catalogo.asp?Num=25717

Sinfonia noturna de Miró

Vi Miró
E Gaudi
Fiz me só
Só com ti
Nesse quadro
Dó ré mi

Flavio Ribeiro de Oliveira, in 26/08/1988 – Possui graduação em Filosofia pela USP (1989), mestrado em Letras (Letras Clássicas) pela USP (1994) e doutorado em Letras (Letras Clássicas) pela USP (2001). Realizou pós-doutorado no Centre Léon Robin (Université Paris IV-Sorbonne / École Normale Supérieure / CNRS) (2008). Atualmente é professor doutor da Unicamp e coordenador de Centro de Estudos Clássicos do Instituto de Estudos da Linguagem dessa universidade.